segunda-feira, 10 de junho de 2013

De saia hoje (virtualmente por enquanto).

Morar longe é estranho... Ainda mais com tanta "informação" e acessibilidade que temos hoje em dia. Me sinto a par do que acontece no Brasil e com meus amigos, mas ao mesmo tempo, dá vontade de estar aí por perto e participar mais ativamente de tudo que acontece.

Essas últimas semanas tenho visto bastante nos jornais os alunos de saias em várias escolas e faculdade. Hoje eu li no Bandeirantes e na São Francisco. Não vou falar muito sobre os comentários do diretor do Bandeirantes que foram no mínimo, preconceituosos, mas junto com isso mostram um enorme despreparo das instituições com a diversidade e de como o discurso que prega a segurança, na verdade, manifesta a intenção de nos manter presos em normas e estruturas que nem mais bem sabemos quando se tornaram convenções. Anyway... deixo de lado os diretores despreparados e penso na saia:


O que a saia representa para a sociedade? Talvez a última peça de roupa exclusivamente feminina. Talvez a única barreira que o homem não se atreve a cruzar, a atravessar ou a desafiar. Ou pelo menos até pouco tempo. 

Moda está na moda, estar na moda, não, mas gostar de moda e se vestir de maneira fashion, sim. Estar na moda é brega, mas ter seu estilo, saber se vestir e se reconhecer é fundamental. Nova York é um prato cheio para as experimentações, para a exclusividade (que logo se torna pública). Aqui, todos vestem o que bem entendem. Camisas largas, camisas justas, calças justas, largas, shorts curtos, shorts grandes. E todos os itens anteriores sejam homens, mulheres, indefinidos (sim, há essa classificação aqui. Pessoas que se recusam a se rotularem como homens ou mulheres)... 

A moda aqui é indiferente a sua identidade, orientação ou manifestação sexual. A moda aqui é indiferente a qualquer categoria vigente em relação ao gênero ou sexo. Seja a pessoa gay, lésbica, bissexual, transgênero, travesti ou questioning, como muitos gostam de se autoclassificar (talvez essa seja a última moda aqui), bem, não importa o que você seja, o estilo de se vestir passa por todos de maneira indistinta.

Caminho por Nova York e vejo meninos de short bem curtos e justos com chinelos e camisetas de bandas de rock. Gay: Não me atrevo a classificar... Meninas de terno, meninos com cabelos cheios de gel, calça chino e camisa polo. Hétero? Não necessariamente... Aparentemente tudo pode em Nova York no que diz respeito a moda e ao seu estilo. Tudo, certo?

Bem, depois de quase quatro anos aqui. Percebi que quase tudo pode. Uma peça ainda não foi desafiada o suficiente. A saia. Meninos podem tudo, menos a saia. Ainda hoje, mesmo nos lugares mais sexualmente diversos da cidade não vi um homem de saia. 

E agora vejo essas manifestações em São Paulo e começo a pensar.... A saia... A única peça de vestuário que o homem ainda não enfrentou. E se você pensa que calcinha também, se engana. Recentemente um amigo me mostrou um site que vende cuelcinhas. Sim, cuelcinhas, calcinhas para o formato do corpo masculino. Há até bodies para o homem. 

Pois aqui penso no público e privado. A calcinha, ou cuelcinha é peça privada, o homem que usa não se manifesta publicamente a respeito disso, mas a saia, essa é pública. É usada na rua, na frente de todos. E aqui temos que enfrentar o preconceito de sermos comparados ao corpo feminino, à mulher... E aí surge o problema. Como podemos querer viver como mulher? E o preconceito que dificilmente admitimos é contra a imagem da mulher em si, de nos rebaixar ao padrão feminino, a eterna condição feminina. Feio, não? 

Até que ponto as questões de gênero, sexo e sexualidade podem ser desafiadas? Até o ponto em que a dúvida ou o questioning (o termo da moda) fique no ar. Calça justa, shorts curto gera a dúvida, mas a saia talvez seja a certeza.  E não é a dúvida em relação à sexualidade, e sim à condição feminina. Mais do que sermos vistos como gays, bichas, veados... a saia nos fragiliza como mulheres. E vejo que que  ainda estamos reproduzindo valores sociais que refletem o eterno preconceito com a mulher.

A saia representa a mais antiga condição feminina. Assim como o terno um dia representou a condição masculina... Porém a saia ainda permanece exclusiva da mulher. E esses homens tão modernos com seus shorts curtos, suas bolsas Fendi penduradas no braço e seus sapatos coloridos desafiam a tudo e a todos, mas ainda correm de medo da saia. A única peça de vestuário que mantém o nosso falo, o nosso agente de poder descoberto, desprotegido e solto.

A saia nos traz uma aura de desproteção: um vento (imortalizado pela Marilyn Monroe), uma sentada diferente e deflagramos o nosso falo, a nossa condição masculina. O falo feminino não precisa de proteção, ele é público como o corpo da mulher. O nosso falo é privado e a saia, não só nos "rebaixa" a uma condição feminina, mas também nos abre para o mundo. 

Talvez (um breve e leve talvez) essa história da saia nos traga uma certa consciência a respeito das diferenças de gênero que vivemos no nosso cotidiano e que além do preconceito com relação à orientação sexual, nos faça refletir sobre algo que me parece tão importante quanto à minha orientação sexual: o preconceito que a mulher ainda sofre diariamente. 

Um dia desses ainda vou sair de saia... Quando tiver certeza de que posso garantir pelo menos alguns dos meus privilégios (os poucos que me sobraram depois de sair do armário) de macho. 

sábado, 13 de abril de 2013

Sobre médic@s, professor@s, advogad@s, dentist@s, ator@s, noss@s vizinh@s....

Hoje recebi um email de um amigo com um link para uma coluna da Folha sobre homossexuais e o armário (Coluna do Alexandre Vidal Porto). Em tempos de facebook, Twitter e tantas outras mídias sociais receber tal coluna por email me fez pensar... por que não postar no facebook tal texto? As pessoas colocam de um tudo no facebook hoje em dia: fotos de viagem, comentários esdrúxulos, horóscopo (fiz isso hoje)... mas me parece que quando a questão é sobre a nossa sexualidade, o silêncio se mantém, mesmo que não seja algo pessoal, pois ainda existe o medo de associação direta ou indireta. Aquele velho medo de adolescente de que as pessoas possam pensar que somos gays porque gostamos da Madonna, ou da Lady Gaga para os mais jovens.

Ironicamente, a coluna fala justamente sobre a importância de sairmos da armário para que as pessoas possam ver mais gays, bichas, veados, homossexuais, entendidos, lésbicas, sapatões..... Visibilidade é fundamental para que as pessoas não achem que ser gay é simplesmente uma questão pessoal que não deva ser vista ou publicada ou como diz o Alexandre Vidal Porto na coluna melhor do que eu poderia tentar dizer "Que não é preciso ser triste, irresponsável e fracassado para ser gay, que não há nada de feio ou indigno na expressão de seu amor."

E o texto vindo por email e não em uma mídia social me trouxe a seguinte pergunta: Qual é a imagem que devemos "publicar" para os outros? A de que não há problema em se falar sobre isso tranquilamente ou a de que para se ter sucesso na vida é preciso ficar no armário? Hoje penso bastante sobre isso e em todos os anos em que me mantive em silêncio por medo de perder meu emprego ou de ter comentários negativos dos pais dos alunos, dos alunos ou de outros colegas de trabalho, sem falar da família. Afinal, ao ficarmos no armário, a imagem que mostramos a todos é a de que existe uma relação sucesso-armário, ou seja, se ficamos no armário garantimos mais sucesso.  Pois somos bons professor@s, médic@s, dentist@s, advogad@s, ator@s, mas ao silenciarmos sobre nossa orientação sexual, a conclusão que passamos é simples: "Fiquem no armário, é melhor assim".

É justamente isso que quero lutar contra. Quero superar esses anos de silêncio falando abertamente sobre o que sou e como sou e mostrar que não há motivo para mantermos o silêncio. E se há, esses motivos precisam ser combatidos. Não há porque não falarmos que somos o que somos, é preciso superar a nossa vergonha pessoal, o nosso medo e deixar que as pessoas vejam que a nossa orientação sexual não influencia em nada no nosso sucesso, na nossa vida profissional.

Penso nos professores que ficam no armário achando que os alunos não sabem de nada (o primeiro post eu falei sobre a mentira que vivemos achando que as pessoas não sabem que somos...). E hoje penso que professor@s, médic@s, dentist@s, advogad@s, ator@s, etc precisam falar abertamente sobre isso para que os jovens possam ver que a possibilidade de sermos gays abertamente é viável. Não é preciso dizer "it gets better", é preciso dizer já está melhor ("It gets better" é uma campanha americana para os jovens em que várias personalidades gravaram vídeos dizendo aos jovens que tudo melhorará (http://www.itgetsbetter.org).

O texto do Alexandre Vidal é justamente sobre isso, Daniela Mercury é um grande exemplo para nós e como ela é preciso de mais e mais pessoas, em vários setores da nossa vida. Um artista ajuda muito, mas um/a professor/a, um/a médico/a, um/a vizinho/a, um/a amigo/a ajudam muito mais porque traz proximidade para a realidade das coisas. Não basta olhar para a TV, é preciso olhar para os lados e ver que a vida fora do armário é muito mais simples do que imaginamos, é mais honesta, é mais bonita.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Uruguay, Rutgers, Daniela Mercury....

Hoje é um daqueles dias que a mídia está "on fire". No que diz respeito aos assuntos caros aos LGBTQ pelo menos.

Ontem fui dormir assistindo ao escândalo mais recente nas universidade americanas (sim, que surpresa, um escândalo...). O técnico do time de basquete da universidade Rutgers em New Jersey foi visto em câmera agredindo fisicamente e usando ataques verbais homofóbicos contra os jogadores do time1.

Já na cama fiquei pensando na punição do técnico, até ontem à noite ele havia sido apenas suspenso por três jogos. Foi impossível não fazer uma comparação e pensar se a punição teria sido a mesma se os ataques verbais tivessem sido raciais e não homofóbicos... Talvez sim, mas o que eu ainda vejo hoje em dia é uma certa permissividade em relação à homofobia. O preconceito racial, apesar de ainda estar longe de ser resolvido, está sendo silenciado através de leis, educação, ações afirmativas... A homofobia ainda não.

Longe de mim querer comparar anos de opressão negra, escravidão, humilhação com a questão homossexual. Mesmo porque, muitos gays se mantém no armário pelo simples fato de poderem manter o status de homem branco no poder (poderia explicar isso com uma música do Caetano, "Americanos"). E por mais opressor que tenha sido e ainda é, muitos gays e lésbicas optaram por simplesmente esconder sua orientação silenciando-se, prática que minorias raciais nunca tiveram como opção. Mas apesar de tais diferenças, acho que há uma pequena possibilidade de comparação aqui: as questões relacionadas às leis e de que maneira tais leis podem ajudar a diminuir a homofobia.

Leis anti-homofobia são fundamentais para que exista uma sociedade mais igualitária. Enquanto acharmos que chamar alguém de gay, veado, sapatão, bicha não tem problema (e não deveria haver problema em alguém ser chamado de veado, o uso de tais palavras como ofensivas é que é o verdadeiro problema) e enquanto tais práticas continuarem a existir nas escolas, nas universidades, nas ruas, ficará mais difícil para que as pessoas se sintam confortáveis para sair do armário e dessa maneira, seguiremos vivendo essa falsa segurança no armário.

Em tempo: hoje na hora do almoço, a universidade liberou uma nota dizendo que após longa consideração havia decidido despedir o técnico.

Precisamos de mais Danielas Mercurys, não só por sair do armário, mas por ser inclusiva, diversa e positiva, menos Bolsonaros, Felicianos, Malafias.... Esses últimos precisam ser neutralizados (eu queria é dizer, silenciados) e para isso precisamos de mais vozes inclusivas.

Ah, sobre o Uruguay. Casamento igualitário aprovado!




1. Nota de rodapé: Basquete e futebol americano têm times universitários que jogam todos os anos em campeonatos nacionais, a importância deles aqui é quase como a de um Brasileirão ou dos campeonatos estaduais. Os jogos passam na TV, são notícia diariamente, não querer acompanhar esses esportes aqui é quase como querer fingir que futebol não existe no Brasil.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Verdades (?) sobre o armário

Talvez uma das grandes verdades sobre o armário é que no fundo, na maioria dos casos - na grande maioria dos casos - todas as pessoas que insistimos em não contar ou esconder, já sabem. Essas pessoas simplesmente se silenciam por respeito, ou por medo de "ofender"...

Ofender é uma palavra muito forte, mas ainda hoje ser chamado de gay, bicha, veado, lésbica é uma ofensa. Muitos se incomodam, inclusive gays e lésbicas. Em aula outro dia, um aluno disse para outro aluno "You don't look gay". Tal frase me incomoda muito pois nela há quase um elogio embutido como se não parecer gay fosse melhor. Quantas vezes nós já não ouvimos algo como "ele é tão bonito, pena que é meio afeminado", ou "não precisa ser tão veado"....

A liberação gay trouxe um preço muito alto para muitas manifestações sexuais, e uma delas foi o preconceito com tod@ aquel@ que não se conformasse ao padrão heterossexista, os gays e lésbicas se heteronormatizaram e para serem aceitos passaram a negar qualquer feminilidade ou masculinidade que pudesse denotar uma orientação sexual fora da norma. Porém, apesar de tanto esforço, a verdade é que as pessoas sabem, as pessoas simplesmente não comentam na nossa frente. E isso é uma violência, um abuso que deixamos sofrer porque temos vergonha de ser quem somos.

Voltando ao meu aluno....

Acho que a minha cara na aula deixou muito claro a minha posição. Os alunos mais antenados fizeram um "ooohhh" e ele ficou meio perplexo. Eu perguntei sobre o sentido da frase e se ele via aquilo como um elogio. De cara, ele disse que não, mas enquanto conversávamos, vimos que, sim, há uma certa noção de elogio em tal frase.

Por que não parecer gay? E na verdade, a pergunta seria "o que é parecer gay"? Baseamos nossas informações por imagens estereotipadas e aquela mulher "masculinizada" (isso tudo é tão problemático) deve ser lésbica, mal-amada ou pior ainda "mal-comida". E o cara que se veste bem e fala fino deve ser veado.  E comento isso ainda hoje em 2013!  E vejo esse comportamento em muitos dos meus amigos que assumem alguns estereótipos para evitar que as pessoas falem deles, mas o que vejo na verdade, é que eles não "passam" (do verbo to pass, muito usado aqui para essa situação) por héteros como gostariam, as pessoas simplesmente não comentam na frente deles porque ainda hoje ser gay é um problema.

E de qualquer maneira, qualquer opinião será sempre baseada em "achismos", pois até o momento de termos uma declaração performática (adora esse termo), a nossa orientação sexual - pelos outros - será baseada em "achismos".

É preciso que ser gay não seja ofensa. Chamar alguém de gay/ bicha/ veado não pode ser ofensa para que ser gay comece a não ser um incômodo (até para @s própri@s gays e lésbicas) e sim apenas mais uma característica, entre tantas outras, do ser humano.

Eu tenho um amigo a quem amo muito que muitas vezes fica bravo comigo dizendo que transformo tudo em polêmica. Na verdade, o que estou tentando fazer aqui é justamente o contrário: despolemizar a nossa sexualidade. Quero que as pessoas possam chegar em uma sala de aula e comentar sobre o marido, esposa, namorado, namorada seja qual for o sexo (como os professores heterossexuais fazem), quero que as pessoas que trabalhem em escritórios coloquem fotos dos "outros-significantes" na mesa e que isso seja tão normal quanto o que os nossos pais (para aqueles que têm pais heterossexuais) fizeram e fazem.

A minha vontade é despolemizar, é espalhar fotos nas mesas de todos os empregados que querem ter uma relação estável e junto com isso deixar que os que não querem ter uma relação também tenham a liberdade de serem sexualmente livres - héteros, lésbicas, gays, bi...

Eu que sou um romântico incurável só peço espaço para uma fotinho pequena. Uma só.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Mudança de rumos

Quando eu soltar a minha voz, por favor entenda
Que palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando
Coração na boca, peito aberto
vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
que eu estou cantando...



Há muitos anos venho querendo ser blogueiro (é essa a palavra?), há muito tempo venho tentando fazer isso com frequência. Já tentei diário, blog com alunos, blog com poemas, blog sobre a minha vida... a última tentativa foi esse blog, sobre NY e a minha vida. Eu, aqui, mais um entre tantos tentando ser Carrie Bradshaw, querendo falar de NY, da vida de um brasileiro aqui... blá, blá, blá, blá....

Mas não sou felizinho o suficiente para amar uma cidade, e muito menos cego o suficiente para fingir que não vejo os problemas. Não consigo falar da cidade porque preciso falar de mim, a cidade acaba sendo apenas um pano de fundo ou como diziam em SATC, a quinta personagem.

Acho a ideia de ser lido genial, gosto de imaginar que pessoas leem o que escrevo e comentam com os outros... Talvez no fundo eu queira mesmo ser cronista. Já tentei escrever romance, conto, poema, mas sempre volto para mim e escrevo sobre mim (ah, essa lua em leão...), até a minha tese é recheada com "Eus". Já pensei em blog de dicas da cidade, mas percebi que minhas dicas não agradam a muita gente....

Já tentei escrever sobre várias coisas, mas acabo sempre parando... sempre deixando de lado porque não consigo dar continuidade, porque não sei o que falar, porque as coisas que faço aqui não são interessantes o suficiente e minhas poesias são bem ruins mesmo.... Talvez, lá no fundo ainda não tinha encontrado minha voz. Até hoje. Acho.

Esses últimos dias foram intensos e uma série de eventos me levaram até esse post. Começo em ordem inversa:

Hoje assisti a uma palestra da Yoani Sánchez (DesdeCuba). Ela escreve sobre Cuba, faz críticas ao governo atual e apresenta um blog interessantíssimo sobre questões da vida na ilha hoje em dia. Claro que não tenho pretensões de atingir o público que ela atinge ou a importância que ela tem (Uma das 100 pessoas mais influentes do mundo na revista Time). Como todo adulto que já foi sonhador, gostaria de escrever sobre um um tema importante para o mundo, algo que movesse multidões - contra ou a favor das minhas palavras - como tem acontecido com Sánchez, mas vivo em um país "diferente" (com todas as críticas que isso permite), vindo de uma outra realidade de nação (de novo, com todas as críticas...). Não sou dissidente, nem exilado, ainda que como muitos da minha geração tenha sonhado com isso... Pois o encontro de hoje de vários blogueiros me fez pensar sobre o que escrever, sobre como escrever e sobre como atingir o público e para qual público quero falar.

Junto com isso, reli o livro de Rafael Bolacha, um apanhado de textos publicados em seu corajoso blog em que ele narra a sua vida como um jovem soropositivo no Brasil (Uma vida positiva). E mais uma vez, me deparei com um impasse.... sobre o que falar....

E voltando um pouco mais no tempo, uns dias atrás, estava em casa tentando escrever a minha tese. PAUSA: Para quem não sabe, escrevo sobre Queer Studies (algo como estudos de sexualidade, pensando na vida LGBT - explico com calma depois). Mas que saibam que estou no departamento de Lesbian, Gay, Bisexual, Transgender and Queer Studies. VOLTANDO: Enquanto não escrevia minha tese, pensava sobre a vida de um jovem gay numa cidade como SP ou NY...

Morando em NY há quatro anos, acabei me distanciando do Brasil e do dia-a-dia da vida gay no meu país. Viver em NY é muito simples, as pessoas se respeitam, o armário praticamente não existe. Andamos de mão-dada na rua e o orgulho gay é tão forte que chegamos ao ponto de ser feio criticar alguém pela sua orientação sexual. Apontar na rua, dar risada de um rapaz com bolsa no braço de grife são ações inimagináveis. Eventos como o do Pastor Feliciano chegam a ser impossíveis nesta cidade - ou até nessa região do país. O prefeito é abertamente a favor do casamento igualitário, tem sempre falado publicamente da importância da população LGBTQ para a cidade, uma das candidatas nas próximas eleições é uma política abertamente lésbica e assim a vida segue. Advogados, médicos, professores, todos amparados pela lei e por uma população abertamente inclusiva (parece o paraíso, né? Bem, pelo menos para andar de mão-dada na rua, é).

Muito bem... porém, com esse distanciamento no coração e a minha pacata vida no trópico de cima acabei me esquecendo que o armário é ainda um elefante branco no Brasil: Final de semana passado eu cruzei com uns brasileiros em um bar e conversando com eles vi tanto medo, tanta dor, tanta vergonha que comecei a pensar sobre a minha vida e a deles e comecei a perceber que a vergonha de serem gays era tão arraigada neles que mesmo aqui, um local em que muitos gays brasileiros vêm para brincarem de serem fora do armário.

Bem, não sou exilado para falar do meu governo, e nem questões tão importantes que me parecem socialmente urgentes, mas tenho esse ponto que para muitos ainda é super importante: Viver a vida sem culpa, sem vergonha e sem medo. Viver a vida tranquilamente, sem fingir que o armário é um problema e que não precisamos falar sobre isso.

Tenho encontrado com muitos homens e mulheres gays, lésbicas, bissexuais... que insistem no armário como uma opção pessoal sem perceber a opressão que isso nos traz e isso acaba me entristecendo, e às vezes enfuriando....

Demorei muito tempo para chegar aqui, não vou parar agora. Pois se tenho que fazer um blog, que seja um blog sobre a vida gay fora do armário, que seja um espaço para falar sobre essa dor que sentimos por não podermos ser quem somos, que seja um grito para os que ainda insistem em viver no armário, que seja um canto para que uns leiam escondido pensando em mudança....

Acho que finalmente encontrei a minha voz. Que saia essa voz...





P.S. Talvez precise mudar o nome do blog, as cores... sei lá... me ajudem com isso.

P.S. 2. Será que preciso de uma "catch phrase" que todo mundo me reconheça?



domingo, 20 de janeiro de 2013

De tudo que passa pela minha cabeça em 2 minutos

E eu estava prestes a começar o ano com mais uma promessa, mas resolvi ler o último post, lá de novembro e li que havia escrito que não faria mais promessas, então ok... no promises.

Vou só escrever e quem sabe seguir escrevendo semanalmente. Não, sabemos que isso não vai acontecer.

Bem, já estamos em 2013, meu quarto ano em NY. Sim, em julho completo 4 anos aqui. E ainda parece que foi ontem. Ainda me lembro dos dias perdidos pela cidade buscando apartamento, tentando escolher bairro, tentando ver o que seria bom para mim.

Eu me lembro bem de andar pelas ruas do meu atual bairro e gostar daqui. E hoje, quando ando pelas ruas do tal Yorkville e vejo a quantidade de brasileiros que vivem perto de mim, começo a desconfiar de alguma vibe verde e amarela por essas ruas. Não sei bem o que me fez viver aqui. Na época, eu pensava, "perto da faculdade, ao lado da possível faculdade que terei que dar aula e razoavelmente perto do metrô (para SP, do lado, para NY, longe - o que barateou o aluguel tremendamente)". Há uma nova linha de metrô que estão construindo por aqui, mas essas coisas em NY são piores que SP, e isso pode demorar anos e anos ainda.

Vivo entre gostar daqui e querer mudar. Já me acostumei com o bairro e tenho uma dificuldade gigante para mudanças, especialmente de espaços físicos. Agora que o dono do restaurante japonês, a moça da lavanderia, o verdureiro, a recepcionista da academia, o moço da pizza, a garçonete do dinner sabem meu nome, ter que mudar? Não sei, não....

Os lugares que gostaria de morar mesmo não posso pagar - West Village, Chelsea, UWS - portanto vou ficando por aqui. Sair da ilha, não quero. O Brooklyn ainda não me convenceu e por mais barba que eu tenha, não me vejo como um hipster fazendo cocô no jardim para usar de adubo nas hortaliças que comem no jantar. Pois então, vou ficando na ilha. Meio ao centro,  totalmente ao leste numa caixinha de fósforo que aprendi a amar como a minha própria casa - Wait, é a minha própria casa - mas que nunca pinto ou mudo muito porque quero achar que é provisória (mesmo não gostando de mudanças...).

E aos poucos, acrescento fotos, peças minhas, presentes da família e ela vai ficando com cara de minha. Mas aí, vem o Marcelo pela câmera do Facetime e me diz que a casa está bagunçada e sem estilo. Talvez eu não tenha estilo mesmo... O que preciso com urgência é uma cama nova. Viagem para Ikea logo, logo  (Sorry, Eu quis dizer "trip to Ikea"- ah esse bilinguismo...).
Já escolhi o modelo, só preciso ir comprar, mandar entregar e pagar para montar. Não, não monto coisas, não sei fazer trabalho manual e não tenho interesse em aprender. Não, não quero comprar uma dessas maquininhas que faz buraco na parede (Como chamam? Furadeira? Broca?). Quero aprender a falar mais quatro línguas, quero aprender ioga, pilates, a escrever com os olhos fechados e a ser poeta. Cada um com as suas coisinhas, né?

E depois da cama? Acho que só, já tenho um sofá, uma TV, uma boa mesinha, acho que preciso de mais storage space... Ah, mas a cama vem com espaço embaixo! Viva Ikea! E espaço para livros.
Me preocupa isso, se algum dia eu sair da faculdade, eu não sei o que faço com as estantes de livros que vou deixando lá. Fora as estantes em SP e as que já tenho aqui. Quando eu morrer, faço como o Mindlin, deixo tudo para a USP e eles constroem um prédio em frente a Letras para a minha coleção de livros. Ou melhor, um prédio para estudos de gênero e sexualidade. Gostei. Só preciso de mais uns 79.000 livros.

A biblioteca de Columbia é assim. Tem um monte de salinha com nome de gente. Gosto de andar por elas e ver quem são ou foram essas pessoas. São salinhas no meio de um andar, como um puxadinho literário. Vire e mexe acho os livros que procuro ali.

Mas onde estava mesmo? Falando sobre o jetlag? Não, falando sobre várias coisas ao mesmo tempo... ainda sob o efeito desse maldito jetlag. Acho que vem com a idade mesmo. Dificuldade de concentração. ADHD depois de velho...

Bem, fui da não-promessa de escrever para o meu bairro para o meu apartamento para a biblioteca para o jetlag e finalmente terminando com um possível diagnóstico de ADHD. Acho melhor parar por aqui. Não vou reler esse texto, não. Deixo como os meus alunos fazem, entregam sem reler. Vamos ver no que vai dar. Talvez seja um bom recomeço, um bom começo para 2013. Deixar a inspiração fluir porque é disso que estou precisando para a tese. Preciso deixar as ideias (ainda me dói não colocar acento em ideia) correrem solto pelos meus dedos e cabeça.

De volta para a tese. Não vou colocar música hoje, não.  E por favor, me mandem inspiração para escrever a tese. Acho que vou postar os capítulos. Quem sabe?










quarta-feira, 14 de novembro de 2012

E mais uma vez, pedindo paciência...

E entre término de namoro, tese, trabalho, problemas com o meu paycheck, furacão deixo de lado o blog. Se o blog fosse um amor já tinha me abandonado cansado das minhas promessas. Coitado de você, blog. Te trato da maneira que me trataram e você persiste aqui em silêncio... E eu só apareço de vez em quando para falar da minha saudade, da cidade que me deixa sozinho, do trabalho, dos alunos...

Me parece que nos momentos de insônia sento no computador e o blog se escreve. E aqui estou, quase uma da manhã de uma quarta-feira.

Pois entre esse término, essa tese, o meu trabalho, acho que me falta tempo. E nessas horas passa pela minha cabeça, sempre a mesma música, "Paciência" do Lenine e fico fuçando na internet tentando achar o clip original que foi ao ar na MTV há muito tempo atrás e eu nunca mais vi. Nem no site do Lenine, nem na MTV, nem no youtube... o vídeo se perdeu na velocidade da vida que "não para", vida rara....

É que ando naqueles momentos que o "corpo pede um pouco mais de alma", sabe? E essa música acerta em cheio na melodia, no velocidade da voz, na letra. Pois o que me falta é paciência... falta um pouco de vontade.... falta alma....

E eu aqui já no alto dos meus 37,  mais perto dos 40 e longe, bem longe dos 20...

Devo admitir que a verdade é que não posso reclamar de muita coisa (além do frio, neve, cerveja cara e aquelas coisinhas de sempre), tenho uma vida bem legal: Um emprego que adoro, escrevo uma tese que gosto muito (ou melhor, tento escrever), tenho amigos que fazem parte da minha, minha família - irmãs, mãe, sobrinhos, sobrinhas, cunhados, primas, pai presente... - tudo muito gostoso.
E quase não reclamo, a não ser dos dias curtos no inverno... Mas acho que esse ano fazer 37 me bateu uma melancolia - não dessa vez não é saudade, não... é melancolia mesmo.

Há um sentimento engraçado de fazer 37 anos, mas às vezes me sinto como um adolescente, um moleque, principalmente no que diz respeito ao coração. Esse coração que insiste em querer pular da boca. E nesses momentos lembro da MTV de quando ela tinha música e eu passava a tarde assistindo clipes... E hoje em dia me sinto mais tranquilo ao ouvir Blink-182 porque vejo que não sou o único jovem que resiste, às vezes, em crescer. E ser maduro demanda tempo. Ser maduro em muitas coisas. Blink 182 me acalma a alma velha nesse espírito jovem. Mas hoje a vez é do Lenine... porque parece "que tudo pede um pouco mais de calma"

E essas angústias noturnas são, na verdade, vontades diurnas que não se concretizam. Esses últimos dois meses foram estranhos. Terminamos tudo em setembro, em outubro fiz aniversário, em novembro tive reunião com meu orientador.... Tinha que ter entregue o primeiro capítulo pronto, mas não entreguei. Tudo bem, ele entendeu, viu meu trabalho e me acalmou. E assim, recuperei a auto-estima perdida entre as chuvas do furacão e a solidão... E agora a única coisa que me atordoa é o final concretizado. Precisei de dois meses para finalmente entender o processo e colocar uma pedra no assunto. E mais uma vez, a poesia, ironicamente em espanhol:



"...Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco..."
Pablo Neruda


E hoje anoiteci com uma multidão de filmes, músicas e poesias na minha cabeça porque, na verdade, essa multitude de coisas quase concretas mascaram uma pequena realidade fictícia: esse iminente final que me atordoou durante esses dois últimos meses.

Minha cabeça tentou dormir borbulhando, nem chegou a acordar, mas levantou cheia. Os sonhos não me deixaram dormir e a vontade de recomeçar me fez antecipar a manhã para tentar ver aonde isso chegaria.

E por causa dessa pequena fatalidade, quase um ano depois, Melancolia de Triers finalmente faz sentido, pois fui dormir com um sol gigante atingindo meu corpo, a diferença que não havia ninguém para me abraçar, não tive tempo de construir uma pequena pirâmide de gravetos e tive que deixar o sol me queimar. E durante os primeiros quinze minutos ocilei entre Justine e Claire, fechando os olhos como John, o primeiro a morrer.

Mas tudo bem, de fato deveríamos ter deixado o sol destruir tudo há muito tempo, quando tínhamos todas as armas na mão, mas insistimos. E por pior que pareça isso tudo agora, pelo menos, tivemos a tranquilidade de deixar-nos sair em paz. Como uma doença terminal. Aos poucos, nos desfizemos da vontade, da verdade e do querer. E deixamos o sorriso amarelo, tímido substituir a lágrima, o grito e a dor.

Há quem prefira o ataque fulminante do coração. Nós insistimos, e foi bom porque passamos os últimos meses ao lado deste corpo-amor morto e fizemos pazes com nossos desejos e deixamos isso tudo que um dia foi amor ir embora e abrimos caminho para algo novo.

Não há mais porque deixar te amar, não há mais porque querer insistir.


I think I've already lost you
I think you're already gone
I think I'm finally scared now
You think I'm weak - but I think you're wrong
I think you're already leaving
Feels like your hand is on the door
I thought this place was an empire
But now I'm relaxed 
Matchbox Twenty


E tudo bem porque, me parece, que já posso recomeçar...

Not as we


Mas tudo tranquilo: eu tenho uma tese, um livro, um blog (que adoraria prometer manter mais atualizado, mas já não faço mais promessas), várias aulas, e uma vontade doida de acordar amanhã afinal,

A vida não para 
A vida é tão rara