segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Nova York em pedaços

Nova York é de todos, mas é para poucos.

Nova York é fantasia, é filme, é cena de televisão. É café em cada esquina, não é violenta, é segura. As pessoas andam, o metrô funciona, as lojas estão abertas aos domingos. Os restaurantes não são caros. Come-se bem, vive-se bem, sonha-se melhor ainda....

.... porque Nova York, quando é real, não sobra muito. Não te deixa ficar doente, não te deixa parar. Mas ao mesmo tempo te deixa ser enquanto se está mal.

Nova York está aberta para todos, mas poucos vivem

Nova York é Manhattan, é a pontinha do Brooklyn agora que investidores resolveram ganham dinheiro nas bordas dos rios. Nova York é pequena, é chique, é elegante.

Até o momento em que você vê mulheres andando de salto alto, até o momento que você precisa pegar o metrô às seis da manhã para trabalhar ou ficar esperando o metrô às quatro da manhã porque o táxi se recusa a ir até a sua casa.

Nova York é uma imensidão de coisas que foge dos olhos.

Nova York se divide entre os que podem tudo e os que servem aos poucos que decidem.

Há aqueles que advogam por uma Nova York mais igualitária, há os que acham que o dinheiro manda e que a vida é assim mesmo. Há os que trabalham, há os que simplesmente têm dinheiro.

Em Nova York se paga 5 dólares por uma boa comida. E entre milhões de refeições de cinco dólares, há gente que paga 500 dólares por um prato, não come tudo e joga fora o que sobrou. Há gente que ajuda, há gente que atrapalha, gente que finge que ajuda e gente que adota cachorro de três patas.

Nova York é vaidosa. O feio é bonito, o bonito incomoda o antigo. O novo destrói o seu redor. Parques saem do chão, ajudam a sentir a desigualdade nos primeiros meses antes que a grana destrua tudo ao redor. Tudo fica de vidro, transparente. A rua é de todos, mas o vidro é dos que pagam a tarifa.

A gente caminha na sombra porque o vidro, ainda que transparente, consegue tapar o sol. Aqui o sol é de poucos. A rua, de todos. Desde que você siga as normas e expectativas do que se espera dos que podem caminhar livremente.

Todos andam, muitos são parados. Sem motivo. Nova York é abandono do Roberto Carlos. Nova York dói nos que se deixam sentir. Mas te faz gozar quando os que doem te fazem sentir.

Há gente que advogue por uma Nova York secreta, aquele em que vivemos, longe dos grandes salários. Nova York é boa porque há espaço para todos, me parece. Nova York é “nem luxo, nem lixo”. É a minha vida, fora do centro, trabalhando no centro, procurando teatro nas laterais.

Dá para ser feliz aqui. Se você sabe amar o que está no meio.

Nova York, me parece, é ideal para quem sabe amar o que não é óbvio. E para quem sabe deixar o óbvio surgir sem vergonha. A cidade não dói, te faz doer. Mas para quem sabe dizer ‘fuck you’ na hora certa.

Muita gente deixa Nova York, outros insistem, mas todo mundo tem vontade de sumir de vez.

Acho que a Rita Lee estava em Nova York quando escreveu “Shangrilá”.





quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Além da saudade

Muito se fala de como saudade é uma palavra única, que não se traduz em outras línguas. Sempre aparece em listas das dez palavras mais difíceis de traduzir.

E é verdade, saudade é nossa. Difícil de traduzir, difícil explicar em aula, mas gostoso de falar. Eu adoro falar de saudade em aula. E ir tirando explicações dos alunos. Uma vez um aluno disse em aula, "só sente saudade quem esteve no Brasil (Desculpem, companheiros lusófonos, mas a saudade é de todos nós)." Recentemente um aluno americano que morou em Portugal disse que os portugueses acham que a saudade é só deles.

Eu me divirto quando os alunos querem dizer "saúde" e dizem "saudade", quando alguém espirra na aula. "Atchim", "Saudade". E eles perguntam, mas o que é saudade? Eu tenho a impressão de que a saudade entra discretamente no corpo daqueles que começam a aprender português e fica lá adormecida esperando o momento certo de aparecer.

Vivendo fora do Brasil, muitas outras palavras vão aparecendo que não conseguimos traduzir. Saudade é a clássica, a que perturba os tradutores, a mais poética, mas há muitas outras! Há palavras que não conseguimos achar uma correspondência em inglês e eu fico tentando entender
com meus alunos. Ou tentando achar alguma palavra em inglês que explique aquele momento.

A minha favorita entre as que não consigo traduzir é chato e chatice. Mas não é só dizer que filme 'chato', tem que pensar naquela entonação que a gente usa quando fala que alguém é 'chato'. A tradução literal é 'annoying', mas como muitas palavras a tradução literal não explica a nossa intonação no 'chato'. Sempre me vem à cabeça o Vlad de "Vamp" chamando a Natasha, de 'Nachata' dizendo "chata, chatinha...."
Lembra das broncas dos nossos pais? Que chato...... Ou daquela aula chata? Então, como explicar?

A outra palavra é frescura. Sabe quando você implica que o arroz veio em cima do feijão e você queria ao contrário? "Frescura".... Ou quando você não quer que entrem na sua casa de sapato? Ou quando você detesta comer em pé no meio da rua? Quando você quer comer uma pizza, mas vê sujeira no chão da pizzaria? "Frescura" E aí? O que dizer em inglês?

"Que fresco você, não?"

Puta aparece com frequência nas aulas. Como explicar uma 'puta festa', ou então que você é um puta cara legal'? Uma vez eu falei em aula, "'é um puta filme". Silêncio. Uma aluna latino-americana perguntou, finalmente, "puta?" Foi nessa aula que eu percebi que durante semestres alguns alunos saíram das aulas sem entender do que eu falava. "Sim, puta pode ser usada como algo bom, 'um puta filme'". E nessa mesma aula, um aluno carioca disse que essa coisa de 'puta festa' é coisa de paulista e que ele achava engraçado, ok, meu....

Entre tantas palavras e momentos, a mais gostosa é gostoso. Tanto pra comida quanto pra gente. Eu adoro explicar os sentidos de gostoso. Essa nossa vontade antropofágica....
Os alunos não acham estranho quando falamos de comida. Mas eles enlouquecem quando uma situação é gostosa. Sabe? Aí o cérebro internacional não processa.  Sabe aquela sensação gostosa de ficar deitado na grama do parque no final do dia? Não é 'relaxing', não. Não é relaxante, é gostoso mesmo. É gostoso pra caramba.

E uma aluna me perguntou, "como uma palavra pode ser gostosa?" Dá-lhe Oliver Sacks neles!



Outro dia apareceu a palavra 'nojento' em aula. Explicar no sentido de 'ai que nojo', ok. That's gross, disgusting'. Mas e aquele pessoa nojentinha? Fresquinha? Chatinha? Só com personagem de televisão mesmo. E não, não há uma palavra pra essas pessoas....

Outra coisa que só sente em português. Aflição. Quando passam a mão em veludo e você morre de aflição (eu, pelo menos). Cada um com a sua.... Mas aqui, não se diz "ai, que aflição". Somos mais frescos mesmo....

Essas palavras todas estão na pele, no sentir. E acho que por acabar de ler a autobiografia do Sacks essas ideias de sentir, confundir, foram se formando na minha cabeça. Fui da saudade pro Oliver Sacks, pro Milton e acabei assistindo de novo "Dona Flor e seus dois maridos", pensando nessas situações-traduções.

E o que será que é isso que dá dentro da gente?
É saudade, aflição, gostosura, chatice... é a gente mesmo. É língua.
É a nossa língua que falta todos os dias no meio da outra língua. E que, às vezes, complementa uma terceira língua. É assim que a gente vive fora, faltando palavras o tempo todo. Observando movimentos para entender como se faz, como se é. E ver que mesmo quando a língua falta, o corpo responde. E já no aperto de mão, sabemos que não viemos do mesmo lugar, mas a mão abre espaço para que a gente se entenda.


P.S. Essas ideias todas merecem um texto com as situações que passamos com o espanhol. Estar em departamentos de 'espanhol e português' sendo minoria entre os hipano-hablantes que veem de mais de vinte países é 'rico' Entre eles já há confusão, imagine quando colocamos um sambinha no tango-merengue-salsa deles.....


sábado, 29 de agosto de 2015

Debates sobre gênero

Perdemos no nível federal, no nível estadual, e no nível municipal (pelo menos em São Paulo). E perdemos por falta de informação, falta de discussão e mais uma vez, pelo excelente trabalho da mídia conservadora e religiosa em distorcer palavras criando logotipos de fácil assimilação que não dizem nada, apenas propagam preconceito. E muitos compram essas ideias.

A principal e mais ridícula que se tem notícia é a tal da ditadura gay... conceito que ninguém consegue definir, mas adora reproduzir. Preconceitos estúpidos como, ‘não tenho nada contra, mas não quero meu filho aprendendo a ser gay’... E a lista adianta.
Ditadura se aproxima de doutrina e se formos falar de doutrina, são as religiões que impõem doutrinas, não? Não há uma ditadura gay, nunca existiu e não há maneira de existir tal coisa. 

A inclusão do debate de gênero nas escolas vai muito além da questão sexual, procuraria mostrar que vivemos em uma sociedade desigual em que mulheres não têm os mesmos privilégios que homens e que tais questões passam por tópicos como raça, classe social e muitos outros. Quando digo que perdemos, todos perdemos. Pequenas e grandes agressões vão além da causa LGBT, interferem na convivência humana. Essa obsessão crescente com a sexualidade (ou melhor, contra a sexualidade) já atingiu níveis de intolerância criminosa. Sexualidade não é sexo! 

Há pessoas que dizem que não é preciso discutir "essas coisas"... Sim, é preciso! Precisamos entender quem e como somos e que há possibilidade de reverter pontos de desigualdade. A escola é parte da sociedade, e como membro ativo da nossa coletividade reflete tais práticas. Desde o menino que não quer jogar futebol até a menina que é excelente em matemática. Vejam que não estou falando de questões de orientação sexual, simplesmente em questões de práticas sociais que ainda hoje sofremos pressão.

Mais exemplos: o menino precisa ser agressivo, precisa se defender. A menina precisa falar baixo, não pode correr. Parece manual dos anos 50, mais ainda se reflete nas escolas. E isso interfere na vida adulta. A Carta Capital publicou um bom texto discorre sobre como a ciência tem mostrado tais efeitos na vida adulta, porém apesar de sermos um estado laico, a religião ainda define os parâmetros escolares. A sala de aula, a escola e a sociedade precisam ser espaços que garantam a igualdade de gênero para todos. 

O debate sobre questões de gênero vai além da questão LGBT. Tal discussão é fundamental para todos. Ainda vivemos em uma sociedade extremamente machista. Desde cedo meninos precisam provar que são homens e meninas precisam entender que são e serão “apenas” mulheres.

Tal debate na escola procuraria diminuir a opressão, mostrar que a igualdade de gênero traz avanços a qualquer sociedade nos mais diversos quesitos. Faz com que entendamos a importância do respeito ao ser humano na sua mais importante habilidade: a vontade de ser alguém.


A escola que se cala, e um país que também se cala frente a essas discussões assume a culpa da grande evasão escolar que temos hoje em dia e também por manter a desigualdade social em níveis alarmantes.  Por exemplo, uma sociedade em que a mulher ainda ganha menos e que acesso à saúde é precário para citar apenas dois exemplos.


Parece que estou batendo na mesma tecla. E sim, estou. Se o governo segue cedendo aos políticos com agendas religiosas em um estado laico, é preciso vozes e mais vozes que garantam tais discussões. Eu fui silenciado durante muitos anos na escola. Fui xingado porque não jogava futebol, convivi com muitos amigos heterossexuais que também não jogavam futebol e também eram xingados. Como eu disse, não é sobre orientação sexual, é sobre respeito ao ser humano. 

Se não há discussão oficial, que haja paralela. Que mais e mais professores, alunos, pais e cidadãos procurem saber sobre o assunto sem se limitarem a palavras-chaves reducionistas. A maneira mais simples de se respeitar, é entender e para entender algo é preciso aprender - na escola e fora dela. 



P.S:

Foto do site da Folha: Cotidiano, 25/08/2015
Enquanto acompanhava pelos jornais a votação em São Paulo uma das cenas mais marcantes foi a de uma freira rezando pedindo a exclusão do 'gênero'. Uma mulher, freira, religiosa rezando pela sua própria discriminação, não como freira, mas como mulher. 







quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Brasileiros em Nova York

Outro dia me disseram que passaporte brasileiro valia muito dinheiro no mercado negro. A razão que me deram foi o fato de o brasileiro não ter um tipo físico muito aparente ou específico. Vamos de oriental, branco, negro (apesar da gente querer insistir que a Gisele Bundchen é o nosso padrão...)

Verdade.

Mentira... Há algo de brasileiro na gente que nos molda. Há um jeito, um olhar, uma cara. E nesses últimos anos nos Estados Unidos, eu adquiri um super-poder de super-herói americano. Adquiri uma visão além-do-alcance para brasileiros em Nova York. Visão essa que foi se aprimorando com o tempo, pois agora detecto os que moram aqui e os que estão visitando. Nunca falha, ou pelo menos, ainda não falhou. Vejo de longe e recebo suas energias orgônicas e acerto. Hoje de manhã, eu detectei vários.

Brasileiros têm várias características comuns. Apesar da "diversidade" que os ladrões de passaporte gostam de ressaltar, nós temos uma cara, ou melhor, um jeito. As mulheres têm um cabelo muito parecido (acho que já falei disso aqui) e é verdade, há um corte típico que mesmo diferente, é parecido. E os homens têm uma carinha semelhante. A maneira de segurar o iphone, a maneira de tirar foto. Acho que é o olhar, com a linguagem corporal. Fora de casa, fica mais fácil observar, como em um apocalipse zumbi, com o tempo você passa a diferenciar de longe o que é zumbi e o que é gente.

Mas há uma característica muito comum no exterior entre nós: A mania de que querer ser local. Brasileiro não pede informação, não anda com mapa na mão – algo que quase todos os turistas fazem em Nova York. Brasileiro procura endereço discretamente. Não pergunta. 

E outra coisa mais forte ainda que nos marca: Brasileiro fala baixo, diferentemente dos italianos, franceses e dos espanhóis. Fora do Brasil, brasileiro fala baixo, morre de vergonha que percebam que eles não são locais ou que não falam a língua local. Fora do Brasil, falamos baixo, que fique claro... Há uma vergonha de falar português. 

E a coisa mais engraçada que já vi muitas vezes e presenciei. Brasileiros quando veem outros grupos de brasileiros se silenciam. Param de falar. Não querem ser reconhecidos. Faça o teste, entre em uma loja de descontos, tipo Century 21, e ande pelos corredores falando português. Ao nos encontrarmos, paramos de falar, olhamos com vergonha, com um sorriso de vontade de se conhecer, mas ficamos tímidos. No fundo, somos tímidos. 

Sempre que saia com a Fran, minha companheira de caminhadas, compras e tudo o mais na cidade, não havia uma vez que não percebíamos o silêncio-reconhecedor dos brasileiros em Nova York.

O fato mais interessante é que em Nova York ninguém fala inglês. No metrô, na rua... não houve até hoje, e pode acreditar, um dia em que saí de casa e no meu caminho até o metrô não ouvi alguém falando uma língua diferente do inglês. Todos falam alguma outra língua. Além do espanhol, há o francês, árabe, hindi, sérvio, russo, criolo francês... menos o português. Português não se fala nas ruas de Nova York, se sussurra. A nossa língua é pouco ouvida, há que se ter audição além-do-alcance. Eu não tenho, mas tenho a minha super-visão. E mesmo em silêncio eu detecto esse grupo.

Quantas vezes eu não vi uma família e me ofereci para tirar foto e eles se envergonharam... "Ah, nossa... não precisa, não". Fora do Brasil que a gente se vira mesmo. Enquanto em casa, a gente gosta dos serviços prestados por terceiros, fora do Brasil, a gente se vira, até para tirar foto. 

No começo, eu procurava ajudar, agora, ignoro, observo e os deixo perdidos. Bem, já dei informação errada, sim. Porque não suporto menininha com cara de cocô com o namorado com cara de quem come cocô fingindo que não precisa de ajuda. E assumo, já mandei gente pro lado oposto só de birra....

Esses dias que ainda estou de férias tenho exercido minha visão brasileira além-do-alcance. Estamos em todos os lugares, mas em silêncio. Hoje eu peguei meu celular e fingi falar com em português. Passei por dois casais e ao chegar perto, eles ouviram minha voz e pararam de falar. 

Por que fazemos isso?????? 

Não sei. Só sei que gosto de caçar brasileiros pelas ruas da cidade. Cuidado que um dia eu te acho! 


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

As fotos que escondem o armário

Uma das grandes verdades sobre o armário que fingimos não perceber é que na maioria dos casos - na grande maioria dos casos - as pessoas sabem sobre a nossa orientação sexual. Simplesmente não comentam porque elas acham que somos nós que temos problemas com a nossa sexualidade. E infelizmente, elas estão certas.

Amigos heterossexuais, pensem em todos os amigos gays e lésbicas que vocês têm e que vivem no armário. Vocês sabem, não? Não falam nada, não? Por quê?

Nós vivemos nessa mentira porque nos conforta e porque no fundo queremos até passar por heterossexuais (vou falar sobre isso também um desses dias).

Essa semana eu postei sobre a "união das escovas de dentes" minha e do meu namorado, agora 'partner'! E me lembrei de alguns amigos em São Paulo que insistem em se esconder por detrás das suas agonias. Eu conheço muita gente que transformou a vida online em segmento da vida real. Faz check-in, posta foto, comenta, faz tudo... mas se mantém em silêncio sobre a vida afetiva (veja: vida afetiva, não sexual). Um conhecido em São Paulo me disse, "mas isso é minha vida pessoal".

Pois ainda caímos na mesma desculpa entre vida pessoal e vida pública. Vida pessoal no instagram, no twitter, no facebook, em todos os sites de social media? Um outro conhecido viaja o mundo com seu namorado, os dois postam fotos das viagens, mas nunca juntos. É como se viajassem constantemente sozinhos. Só quem vê as fotos sabe que há um outro alguém por detrás daquelas câmeras (sorry, iphones, gente fina tira foto de iphone, não pela câmera).
Isso me parece uma agressão. Uma pessoa que tem tanto prazer em postar tudo, com certeza, sofre por não postar sobre o seu relacionamento....

Essa desculpa de vida privada não cola mais hoje em dia. Se uma pessoa posta cada check-in que faz, é preciso refletir sobre os limites do medo, e de como essa pessoa ainda está no armário. Eu tenho brigado muito sobre esses medos.

Não posso ter medo ou vergonha de dizer que estou morando afetivamente com um outro indivíduo. Essa parte da minha vida é tão importante quanto as fotos dos casamentos de todos os meus amigos e familiares. Pessoalmente, não pretendo me casar, mas quero que as pessoas saibam que tenho alguém. Não quero situações constrangedoras em que todos sabem, mas ninguém fala. O elefante cor-de-rosa desaparece e passamos a mostrar às pessoas que afetividade não tem gênero, idade, sexo, identidade ou orientação.

Eu sempre pergunto para esses amigos que se escondem. Se você estivesse casado com uma mulher (ou homem para as lésbicas) você postaria fotos? A resposta: Silêncio....
A verdade é que vida pessoal vale para todos. Há heterossexuais que não postam nada, há LGBTs que não postam nada e gente que divide muito. Minha pergunta é simples, se você é desses que divide tudo porque não fala do seu relacionamento? Eu te digo: armário!

Falar sobre isso é o que me faz político. Insistir que ser feliz é ser simples, é não ter medo. Talvez tenha gente que ache que eu exagere, não sei. Eu me acho discreto no quesito vida online, mas saber que as pessoas sabem que minha vida afetiva é plena e feliz é importante para mim. Saber que LGBTs vivem de maneira tão diversa como os heterossexuais é parte da nossa busca política. Tem gente que casa, gente que vive junto, gente que tem amante, gente que não transa, gente que casa e não transa, gente que só transa e nunca casou.... e isso vale para tod@s sem distinção de identidade ou orientação sexual.

Como dizia um amigo, eu sou um monogâmico feliz, por que esconder?

Vamos pensar sobre isso, gente.... O que nos impede de postar fotos ao lado do namorad@?
















quinta-feira, 30 de julho de 2015

Efeminofobia

De que te serve ser um menino se vais crescer e tornar-te um homem? 
Gertrude Stein


Os dois últimos meses foram bem intensos e cheios de novidades. Entre elas, eu tive a chance de participar do Chá dos 5 (a página oficial no facebook deles aqui). Eu venho acompanhando os vídeos deles há uns meses e fiquei super feliz de poder falar das minhas inquietações com o Marcell, Rafael, Renato e Thiago.

Durante o programa, falamos de várias coisas como a importância de se discutir identidade e orientação sexuais na escola; sobre a não menos importante ideia de que os professores precisam saber sobre o assunto, e entre outros tantos assuntos, mencionei a ideia de efeminofobia.

O termo tem aparecido bastante em artigos acadêmicos em inglês (effeminophobia) discutindo a ideia de que temos um pavor em relação aos rapazes efeminados. Entre tantos textos há dois que são particularmente importantes por irem além do academicismo e tratarem de tais temas de maneira tão 'delicada'. O primeiro é do Giancarlo Cornejo e se chama "La guerra declarada contra el niño afeminado: Una autoetnografia queer". E o outro é de Eve Segdwick e se chama "How to bring your kids up gay". A tradução literal do termo indica fobia a efeminados e procura mostrar esse horror que se sente em relação à efeminação.

Tal 'pavor' existe mesmo dentro da própria comunidade LGBT. Afinal, quantas vezes não ouvimos coisas do tipo "ser gay, tudo bem, mas não precisa desmunhecar, né?", "não gosto de veado, gosto de homem de verdade", "ele é tão bonitinho, pena que é feminino" e a lista vai, poderíamos seguir com tal discussão por muito tempo e muitos de nós temos exemplos semelhantes. Sem contar na quantidade de gays que não conseguem se olhar no espelho e perceber a própria feminilidade (seja lá o que for essa tal marca feminina ou masculina...).

Eu me lembro quando um conhecido em São Paulo me disse que preferia não sentar na mesa de um 'certo' grupo de pessoas porque eram muito bichas.... Eu perguntei se ele já tinha se questionado quantas vezes alguém não teria falado a mesma coisa dele, só que pelas costas como ele estava fazendo naquele momento. Antes de sair do bar, ele me disse, vai lá você se contaminar com essa gente'. Sim, contaminar.... Efeminação é, além de tudo, contagiosa.

Ainda no campo da memória, para mim, como professor, o exemplo mais marcante foi quando ouvi da coordenadora de uma escola onde eu trabalhava que ela gostava muito do Prof. X, mas achava que ele era feminino demais para dar aula para crianças ou para os mais velhos do ensino médio. Na época, como em muitas outras vezes, me silenciei. Não tive coragem de reagir a tamanho preconceito.

Preconceito? Sim, preconceito. Muitas pessoas, LGBT inclusive, ainda insistem numa tal ideia de masculinidade para homens ou feminilidade para as mulheres. Insistem que o problema não é ser gay, mas ser muito espalhafatoso ou outros eufemismos que usamos para mascarar o nosso preconceito. Pois eu pergunto, qual é o problema em ser efeminado? Qual o problema em ser 'mulherzinha'?

A(s) resposta(s) para tais questionamentos nos obrigam a voltar a pensar na mulher e de que como a ideia de feminilidade é vista como algo menor, algo sem valor. Tal preconceito esbarra numa ideia pré-concebida do que seja ser mulher, ou feminino/a. Feminismo, alguém?

É fundamental que a gente comece a perceber nossos próprios preconceitos e tentar entender porque o feminino nos incomoda tanto. E há tanto tempo. É preciso perder a vergonha que se sente ao andar ao lado de um rapaz feminino e tentar entender porque isso nos incomoda. Será mesmo que com andamos nos define?

A efeminofobia é um problema sério, um preconceito gravíssimo que gera situações opressivas a crianças que, muitas vezes, ainda nem estão questionando a suas sexualidades. Gera opressão a adolescentes que se sentem isolados em seu espaço escolar (o local onde normalmente passam a maior parte de sua adolescência). Oprime a adultos em seus ambientes de trabalho,e em suas vidas de maneira geral. A efeminofobia não é só em relação aos rapazes efeminados. Esse pavor/ medo é em relação aos nossos próprios desejos. E, por isso, é fundamental que encontremos maneiras de entender nossos preconceitos e tentar mudar a forma como lidamos com todos aqueles que não respondem à ansiedade social de ser homem, ou de ser mulher. Afinal, quem é que responde de maneira tão 'correta' a tal modelo?

Vamos voltar um pouco no tempo e terminar dançando a nossa feminilidade/ masculinidade e tentar vencer nossos próprios preconceitos?