sexta-feira, 11 de abril de 2014

A porra da buceta é dela!


Valesca é pensadora? Não sei, mas tem feito muita gente pensar. E isso já é algo que deve ser levado em consideração.

Já faz tempo que venho tentando articular uma defesa do funk carioca e de como, diferentemente de muitos outros gêneros brasileiros, tem se colocado à frente de uma possível luta feminista. Não sei o quão consciente tal atitude é, mas há muito tempo algumas funkeiras tem feito a gente repensar o nosso machismo de cada dia. 

Como quase todos os gêneros – da MPB ao sertanejo – o funk carioca, é tradicionalmente machista e centrado no olhar e voz do homem. Porém, aos poucos foi abrindo pequenos espaços de visibilidade para mulheres e travestis. E no meio dessa masculinidade exacerbada foram surgindo aos poucos mulheres aqui, outras ali, que resolveram falar sobre o desejo sexual, sobre a própria buceta, sobre fazer uma espanhola e engolir a porra, sobre homem que pede dedinho. Vulgaridades, baixarias.... coisas que muita gente disse, porém muita gente também nunca pareceu se importar com a mulher que joga a bundinha para frente, com a que passa e rebola, com a que se mostra só para o homem, que mexe a cadeira.... Pois, enquanto objeto, a vulgaridade feminina é mais aceita pois mantém a mulher no seu devido lugar, ou seja, a eterna garota de Ipanema que vem e que passa, mas a mulher que goza, que escolhe a rola que entra na buceta tem que se manter calada e relegada à rua escura e vazia da noite.

Não pretendo discutir qualidade artística e nem vou entrar no mérito temporal (lembrem-se que samba foi desqualificado e proibido, modernismo denegrido e também proibido...), o que me parece relevante é a importância de se ter finalmente mulheres dispostas a falar do próprio desejo, ainda que de maneira tão literal. E isso é fundamental para aprendermos que mulher goza, tem tesão e pode ter agência sexual. E é o que as funkeiras vêm fazendo, colocando a mulher à frente e no comando do seu desejo sexual. Afinal, às vezes, um pouco de literalidade é preciso para abrirmos os olhos (alguém se lembra da Marta da TVmulher?). 

Pensando no nosso modelo americano (ainda que quase esvaziado de conteúdo), Beyoncé quando dança, o faz seminua se mostrando para um homem totalmente vestido, ou seja, a sua agência sexual é sempre mediada pelo olhar masculino e vestido. Shakira, apesar de suas investidas quase feministas nos últimos anos (seus primeiros discos) fez um péssimo vídeo em que rola na cama com outra mulher – Rihanna – não por ter desejo por ela, mas por querer fazer “anything he wants”, pronome masculino que segue enfatizado na canção. A única que conseguiu tentar mostrar a maneira como a mulher é tratada foi a Jennifer Lopez que fez um vídeo em que o homem é o objeto coisificado. O vídeo - censurado nos EUA - é interessante (apesar da música ser bem chata) ao a inverter a tradicional posição de objeto colocando o homem nesse lugar-coisa, mas o que deveria nos chocar ainda mais é o fato de que precisamos de homens para nos mostrar que essa imagem de mulher-objeto é ridícula. Outra tentativa de abrir nossos olhos foi a sátira que os Bondi Hipsters fizeram com as fotos que uma modelo fez para a revista GQ, um homem semi-nu falando as bobagens que ela disse na revista

Voltando ao Brasil....

No meio de tanta vulgaridade que aceitamos, lemos e mais importante consumimosquando nos aparece uma mulher gritando que a porra da buceta é dela nos chocamos, nos assustamos sem nem pensar que quando uma mulher ralava a buceta na boquinha da garrafa todos imitávamos entre risadas e diversão.  A essa mulher que não tem vergonha de dar o cu, eu aplaudo e admiro, pois finalmente há mulheres que vêm e falam que gozam quando querem e quando acham necessário e não só definem seu orgasmo pelo prazer masculino. 


Não sei se Valesca é pensadora, isso não me importa. O que nos importa nesse momento é ver que a sua canção ou performance nos faz pensar a respeito da posição da mulher. Por isso, também acho fundamental a imagem que ela distribuiu pelada dizendo que não merece ser estuprada. Ela é dona do corpo dela e nua ou não, vagabunda ou não, não pode e não merece ser estuprada. Ainda hoje nos pegamos com pensamentos conservadores e machistas ao vermos mulheres seminuas, como se uma mulher assim não merecesse respeito. Chamá-la de vagabunda é concordar de maneira indireta com a pesquisa do IPEA e isso é propagar a visão machista em que vivemos. Não me importa se é promíscua, se é santa, se está pelada, pois se o que uma mulher faz com o corpo é pelo próprio prazer, ela não é vagabunda. Não é puta. É mulher.

Muitos argumentam que há outras maneiras mais “discretas” de ser feminista. Maneiras mais intelectuais – Simone de Bouvoir, Marilena Chauí, Monique Wittig, Audre Lorde, Pagu... – Sim, claro, mas uma não anula a outra. Que a cultura pop seja porta de reflexão para debates mais aprofundados não é novidade. O que me parece estranho é negar essa cultura pop sem se aprofundar em outros textos. Compreendem? Quero dizer aqui, de forma bem clara, que muita gente esvazia o valor do pop, mas segue assistindo televisão e comprando enlatado. Negue a cultura pop, mas faça com propriedade. Leia Schopenhauer (ainda que de acordo com meu grande amigo/mestre Mario ele seja um escroto super valorizado) como no link que uma amiga me mandou hoje. Leia. 

Declarar que esse tipo de música é simplesmente baixaria é tentar, mais uma vez, negar a agência sexual da mulher e mantê-la como a eterna garotinha de Ipanema que só passa, mas não diz nada, objeto de desejo do homem e só do homem.

Há muito que se fazer. E é preciso ser feito desde cedo. Você que tem filhas pequenas, olhe para os seus brinquedos. Não há brinquedo de montar? Por que as casinhas de bonecas já vêm montadas? Meninas não montam, isso é coisa de menino. A historinha da princesinha que vai ser salva, a bonequinha que vem com namorado, menina não senta de perna aberta, menina não corre, menina não constrói aviãozinho.... e a lista vai. E de pouco em pouco achamos normal menina não saber montar coisa ("coisa de homem"), dirigir mal ("coisa de homem").... Perceber que muitos conhecidos estão repetindo esses valores, me dói, por isso que aplaudo as funkeiras que não têm medo de gozar porque ainda hoje vou ver muitas meninas crescerem sem saber direito o que é gozar porque menina direita se comporta, passa de biquíni na praia sempre em silêncio. Eu prefiro o grito desafinado de uma funkeira ao silêncio comprometido da eterna garota de Ipanema.


Em tempo 1: Eu sei que há muitos outros exemplos na música, Ângela Roro, por exemplo, mas quero pensar nos modos como falamos abertamente sobre sexualidade e de como a voz masculina quando se apodera do prazer não nos choca, mas a voz feminina, sim.

Em tempo 2: Este texto é parte de um projeto meu sobre feminismo e homossexualidade (e claro, muita cultura pop) que vai se desenrolando e se desenvolvendo aos poucos. Quem quiser, podemos falar mais sobre o tema. 


quinta-feira, 20 de março de 2014

Por que não reclamar mais um pouco dos visitantes de Nova York (e de todos os outros lugares por onde passo)?


Há um tempo eu comentei sobre as pessoas que tiram foto de tudo e só tiram foto e acabam perdendo um pouco a mirada, o olhar para o nosso redor. A perspectiva das nossas viagens é totalmente intermediada pela câmera do celular ou pela super câmera gigante que usamos três features.  Ninguém viaja mais, ninguém olha, as pessoas tiram foto e postam. Postar virou febre, você vai andando pelas ruas, pelos museus e tudo o que as pessoas fazem é isso, tirar foto e postar. Instagram, facebook…. coisa demais. 

Semana passada eu fui à Bienal daqui, uma exposição local em um museu menor que poucos turistas vão, mas esse fenômeno imagético não é só de turista, não. É geral. Durante a minha caminhada pelo museu uma pessoa ficou brava comigo porque eu passei na frente da foto. E dessa vez nem foi de propósito. Mas nem caminhar eu posso mais! Se eu tiver que parar em um museu a cada pessoa que tira foto eu não caminho, tenho que escolher um círculo no meio do andar e ficar parado ali o tempo todo até que me confundam com uma instalação e passem a tirar fotos de mim também. E para piorar ainda mais a nossa self-situation,  semana passada um jovem conseguiu superar qualquer expectativa de falta de respeito ao destruir uma estátua em um museu!

Me chamem de radical, mas eu acho que há lugares em que fotos devem ser proibidas. Museu é um desses lugares. Me expliquem qual a razão de tirar foto de um quadro? Por que deixar de observar o quadro e guardar a imagem na memória. Além de radical, me chamem de chato, mas eu ainda sou daqueles que andam com caderninho e lápis na mão para ir em museu….

Uma pequena digressão….
Sobre fotos com quadros, Jacqueline Livingston já fez isso há  mais de vinte anos. Ela ia tirando fotos dela na frente de quadros famosos. Essa ao lado é a minha favorita. Mas é preciso lembrar do trabalho dela como feminista, artista e fotógrafa e quais imagens ela escolheu para documentar esse narcisismo feminista (ela perdeu o emprego em Cornell nos anos 70 por tirar fotos de seus filhos pequenos nus. sim, há muito mais puritanismo aqui do que imaginamos). 


Voltando aos nossos retratos….

Em janeiro quando visitei Inhotim, vi várias pessoas tirando foto de tudo, mesmo com as insistentes placas proibindo foto. Eu tive que ser chato e pedir para uma mulher parar de tirar foto dentro de uma instalação - um iglu minúsculo que fazia um jogo de luzes. Além da luz do artista ainda tinha o flash da desavisada…. - Ao longo do parque/ museu/ galeria pessoas iam tirando foto de tudo, andando com o ipad na mão filmando e "narrando" o que viam. A era do rádio na era da internet…. nem o Gilberto Gil conseguiu prever essa. 

E quando a gente acha que não pode piorar a gente consegue ir mais fundo.

Pois agora, além de tirar foto de tudo, nós resolvemos dar as costas ao mundo e fazer um esforço para aparecer na foto. Nós viramos a câmera para nós mesmos. Não olhamos mais para o que está ao nosso redor, e olhamos para nós mesmos. E o narcisismo ganha dimensões que não haverá lago suficiente para que todos se afoguem. 

E a gente compra as ideias mercadológicas e de marketing como algo genial e divertido. Essa história de "selfie" começou com celebridades, pessoas famosas que perceberam que poderiam ganhar mais dinheiro ainda com o público, pobres seguidores de selfies. Por que tirar foto em um restaurante? Por que tirar foto usando uma determinada roupa? Por que tirar foto usando determinada marca? Publicidade quase de graça…. Dizem por aqui que essas celebridades chegam a receber até 20.000 dólares por foto, por um simples "endorsement". E a gente acredita, a gente compra e a gente se vende fazendo a propaganda de graça. E as grandes empresas (porque essas celebridades que vivem disso mais do que pessoas são empresas) vão ganhando dinheiro. 

E a coisa continua a piorar... Os selfies já eram febres publicitárias mas bastou todo mundo cair na armadilha promocional da super carismática Ellen Degeneris que os selfies viraram mais moda ainda. Em uma genial tacada de marketing, a marca do celular da Ellen conseguiu em segundos tirar o twitter do ar e a Ellen provavelmente ficou alguns milhões mais rica. E nós, passamos a copiá-la desesperadamente. 

Meus passeios pelo facebook já eram desanimadores, agora então…. Selfie, selfie…. E o mais triste foi ver ator do Globo pagando pau para gringo fazendo selfie em grupo. E há algo que também precisamos discutir com urgência: esse excesso de felicidade. Gente, sério, dá para ser tão feliz assim? Sério mesmo? É preciso ser assim? 

Ainda bem que há pessoas que tentam ir além, quebrar um pouco a nossa monotonia e nos fazer pensar (e ainda dizem que arte não é importante). Como esse artista americano que fez uma série de auto-retratos falando sobre o seu vício heroína. Não sei se são selfies, mas que nos fazem abrir os olhos, isso sim. 

Eu, de selfie, comigo mesmo tentando entender os mecanismos
de uma auto-foto-selfie em um museu
Outro dia pensei em criar o anti-selfie. A minha foto de costas para a camera de olho para o mundo a minha frente. Mas além de me dar preguiça, resolvi que o meu anti-selfie é simplesmente não tirar foto mesmo. Ninguém precisa saber da minha cara (é a mesma, com mais rugas), ou de onde como ou onde sento no avião. Ninguém precisa saber disso, eu acho… Quero saber de outras coisas, mas posso esperar para te ver,  quem sabe…

Estamos no fim dos fins, mas pelo menos esse fim vai ser bem documentado com todo muito feliz pois como se não bastasse olhar o mundo através da câmera com um sorriso de ponta a ponta agora é a nossa cara de costas pro mundo.

Me parece que estamos caminhando de costas e também me parece que é o jeito que todo mundo quer caminhar agora. Com um grande sorriso na boca e de costas para tudo e para todos e todos os outros de frente para as nossos celulares, computadores, para as nossas telas com preguiça de sentir aquela dorzinha no olho quando a gente levanta a cabeça da tela. 


domingo, 9 de março de 2014

Quem disse que você é homem?


"De que te serve ser um menino, se vai crescer e se transformar em um homem?"
Gertrude Stein, "Autobiografia de todo mundo"


Hoje enquanto eu lia o jornal sobre grupos feministas e cantadas na rua me lembrei de uma conversa que tive com amigos em São Paulo. Conversávamos sobre machismo, feminismo e aquele papo chato de que feminismo é coisa de mulher mal-amada...

NOTA: O assunto me parece mais atual do que nunca. Em dias como os de hoje em que uma cantora como Beyoncé lança um vídeo erótico dançando semi-nua para um homem totalmente vestido e ainda diz em francês no meio da música “os homens pensam que as feministas odeiam o sexo”, tal assunto faz-se mais atual do que nunca.

… Pois enquanto falávamos sobre esses assuntos em São Paulo, eu disse que havia horas que me dava vergonha de ser homem. Foi quando alguém disse – rindo – “mas você não é homem”. E todos na mesa riram. Eu também. Há um certo orgulho meu em não ser homem, pelo menos em não ser esse homem que grita “gostosa” na rua. Mas ao mesmo tempo, entre tantos gays na mesa, no momento que aquilo foi dito houve uma certa masculinização dos modos, dos jeitos, quase que desistindo do suco e apelando para a cerveja. “Não ser homem” incomodou muita gente na mesa.

Mas por que não ser homem é algo que ainda incomoda tanto? No fundo, quando ouvimos isso ou algo semelhante, muitos de nós – gays, veados, bichas, homossexuais – seja como for que chamamos a nós mesmos, nos incomodamos com esse papo de não sermos homens:

Deixar de ser homem é um exercício poderoso, é abrir mão de certas vantagens que ganhamos. Deixar de ser homem é querer ser equiparado à mulher. E isso é algo que poucos queremos. É ganhar menos, é ter seu nome gritado na rua, é não ser respeitado quando você quer consertar o carro, é não ser respeitado como profissional, é passar parte da sua vida aceitando que sua sexualidade é limitada, que seu orgasmo não é como o do outro, é acreditar que ter tesão com pornografia é coisa de homem, é assistir pornografia e entender que você é só um receptáculo que adorar levar porrada e ser xingado, afinal não querer ser homem é admitir que há uma diferença gritante entre nós que fingimos não perceber.

E ser gay – nem homem, nem mulher – nesses termos machistas é ser alguém que admite ser mais parecido com a mulher que com o homem. E isso vale a pena? Para a grande maioria dos gays urbanos que se silenciam em nome de respeito não vale. E o nosso silencioso armário, além de ofensas a nós mesmo, é também uma ofensa ao “ser mulher”. E mais uma vez, a mulher não escapa da afronta. Nesses termos em que ser gay é negar a masculinidade, é renunciar ao “ser homem”, quando nos ofendemos com “você nem homem é”, ofendemos diretamente a mulher. Pois se não queremos não-ser-homem, o que nos resta?

Na nossa sociedade binária, há homens e mulheres. E há, de acordo com a psiquiatria aqueles que não se conformam nem com um, nem com o outro – trans... – E para muitos ser gay é estar no meio dos dois. É querer ser mulher num corpo de homem. Porém para muitos gays isso é coisa de travesti, para outros de transexual e a matemática não se fecha nunca. E nem deve. Somos homens, mulheres, trans, ou nada, ou somos um pouco de tudo ao mesmo tempo. Há homens que gostam de homens, homens que gostam dos dois, homens que não gostam de nada, mas acima de tudo há homens que se sentem melhores que outros simplesmente por serem homens. E esse último está involucrado em todas as manifestações masculinas da nossa sociedade machista.

Há um outro caminho? Hipoteticamente, sim. Há o caminho “ser gente”. Simplesmente. Ser uma pessoa que respeita os outros, uma pessoa com características únicas ou coletivas, mas uma pessoa e nada mais. Porém, digo hipoteticamente porque em um sociedade em que a mulher ainda é tratada como um ser menor, essa alternativa ainda não me vale. Pois ao “ser gente” fecho os olhos para a opressão masculina com a mulher que nos destrói aos poucos todos os dias. Ainda não dá. Preciso escolher ir além de ser homem, ser mulher e até de ser gente. É preciso ser alguém que não se conforme com o homem que grita “gostosa” na rua, com o homem que acha que não há problema em tirar uma foto por debaixo da saia de uma mulher, ser uma pessoa que não se conforma com a exploração corporal de uma mulher dançando pelada para um homem vestido, ou seja é não se conformar com uma infinidade de fatos do nosso breve cotidiano.


Vale a pena ser homem? Se você abrir mão da verdade ao seu redor, sim, vale. Muito. Mas ignorar que suas colegas de trabalho ainda ganham menos que você, ignorar que suas parceiras/amigas/mulheres têm que pensar no que vão vestir para não serem confundidas com um simples objeto sexual, ou por temer serem estupradas,  ignorar a negação da sexualidade feminina em nome do orgasmo masculino, ignorar a falta de espaço na política, ignorar todas essas diferenças faz com que ser homem não valha a pena nem por um minuto. 

Ainda que internamente me doa saber que não sou homem, é o meu exercício diário aceitar que esse homem que não abre mão de suas vantagens já não sou.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

E no dia do grande beijo na TV, um pouco sobre o meu não-beijo

E no meio de tanto texto sobre a vida fora do armário, há aquele dia em que a gente, disfarçadamente, volta para o armário...

Eu venho escrevendo este texto há uma semana - desde domingo passado - e por uma coincidência ou alinhamento astral acabo publicando logo depois do beijo do Félix e do Niko na televisão. E logo depois do primeiro beijo na novela acabo falando meu não-beijo.

Domingo à noite, voltando para a casa depois da festa de uma amiga eu estava no metrô com meu namorado (ou amigo se você ainda não consegue entender que pessoas do mesmo sexo namoram e criam relações afetivas entre el@s) e eu desceria primeiro. Como muitos casais fazem quando nos encontramos e quando nos despedimos há um breve beijo de oi ou de tchau. No rosto, na bochecha, no lábio, um selinho…. Pois naquela noite, já na parada anterior a minha, nos olhamos e pensamos na mesma coisa, "como dizer tchau aqui?"

Metrô idéal?
Já tínhamos olhado para os lados e aquele vagão estava particularmente ameaçador. Cheio de homens, sentados, com cara de bravo, e aos poucos aquela sensação - infundada - de que todos estavam nos olhando. E nós apenas lado a lado conversando como muitas outras pessoas no vagão. 

Em poucas palavras, decidimos por um breve tchau e saí do metrô. Não, nós não apelamos para o tapinha no ombro, "see you, dude" ou algo do tipo, simplesmente dissemos "tchau". 

Desci do metrô incomodado, pensando naquela situação, ainda na rua, liguei de volta para ele. Era preciso confirmar que estávamos bem e de certa forma tentar entender o que tinha acontecido. Pensando na nossa covardia de não dizermos boa noite com um simples beijo, chegamos cada um na sua casa e nos falamos pelo telefone. O nosso "não-beijo" tinha ficado na nossa cabeça o tempo inteiro. Nos falamos brevemente, pedimos desculpa pelo comportamento infantil e medroso e seguimos pensando nessa situação. 

Essa historinha simples de parágrafos curtos, na verdade mascara algo muito mais dolorido do que a simples decisão de "esconder" nosso relacionamento.

Primeiro, o fato de estarmos juntos no mesmo metrô lado a lado e automaticamente nos sentirmos ameaçados por imagens ao nosso redor. Quem garante o que somos? Irmãos, primos, amigos, amantes…. Mas o nosso medo era a nossa declaração de que algo estava fora da ordem entre nós. E que ordem? Nós, que passamos horas escrevendo sobre o nosso preconceito, questionando essa tal ordem que diz que normal é mulher casar com homem e que o resto é minoria ou divergências da norma nos deparamos, ainda que por um breve momento, com nós mesmos em frente aos espelhos nos sentindo fora da ordem.

Segundo, pelo nosso julgamento a partir da aparência das pessoas, algo que nós mesmos passamos diariamente e mesmo assim acabamos sendo perpetuadores de tais estereótipos. Um vagão de metrô lotado de homens, mulheres, jovens e meia-idade….  e sem nem conhecê-los, julgamos a todos como homofóbicos e possíveis agressores, pela simples cara deles. Nada mais. Olhamos e nos sentimos ameaçados. Não houve nada, nem remotamente agressivo neles, a não ser o nosso próprio medo e pré-julgamento das pessoas ao nosso redor. A triste cara emburrada de um indivíduo nos ameaça.

Terceiro, mesmo tão fora do armário como achamos estar ainda há momentos em que nos sentimos forçados a voltar para o armário. Momentos que nos arrependemos depois pois sabemos que esse medo é, na maioria das vezes, nosso. Algo que eu mesmo já falei aqui outras vezes. Nós que ainda nos aceitamos…

Ou seja, eu ainda não me aceitei? Ou tenho medo de que ainda existam pessoas que se incomodem com a minha presença simplesmente? Sem resposta, o que me faz refletir é que mesmo hoje há momentos em que me retraio de medo e desisto de enfrentar o meu próprio monstro homofóbico. Algo que muitos dos meus amigos enfrentam diariamente ao se levantar da cama e seguir para o trabalho. Eu achava que já tinha me livrado totalmente dessa "capa protetora" que acreditamos esconder ou ocultar parte da nossa identidade dos outros. Porém, cá estou usando essa capa em um vagão do metrô.

Ou será que estava usando mesmo essa capa? Pois talvez aquelas pessoas no metrô nem olharam para mim, nem me viram, talvez tenha sido apenas o meu egogay inflamado. Algo que muitos LGBT se identificam. Ao mesmo tempo que queremos esconder, estamos - secretamente - gritando para os outros que nos arranquem do armário. Nos perguntem, nos coloquem na parede como vários alunos meus fizeram ao longo da minha trajetória e eu nunca tive coragem de responder (sim, sou gay). 


Voltando àquela noite


Chegando em casa eu ligo a televisão e começo a assistir uma reportagem sobre um possível - elegedly, como dizem aqui - ataque homofóbico a um jornalista de Nova Iorque.

Mais um ataque homofóbico na cidade ficava ressonando na minha cabeça….

E aquela notícia me faz pensar que talvez eu tivesse razão em ter evitado o beijo no metrô, afinal essas coisas ainda acontecem e poderíamos ter sido atacados. Eu estava certo. Segui a intuição e cheguei a salvo em casa. Estava certo...

Mas a verdade é que eu sei que estava errado. Nada teria acontecido ali e eu, por medo e vergonha, me encolhi frente a um grupo de bullys imaginários. Me retraí frente a minha própria mente que ainda me bully frente ao que eu gosto de achar que já tenho tranquilo. 




quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O armário paulistano e a volta para Nova York



Desde que saí do Brasil minha vida mudou em muitos aspectos. Há coisas que são melhores, outras não, algumas melhorando... mas a vida segue e eu vou caminhando... Porém talvez o principal ponto de mudança tenha sido a minha vida totalmente fora do armário. Hoje, não escondo, não omito, não minto. Se me perguntam se tenho namorada respondo que não e falo sobre a minha sexualidade de maneira natural e tenho a maior de todas as certezas que a minha maneira de falar acalma as pessoas e traz aliados para um mundo mais livre de tantas amarras. De fato, algumas vezes encontro surpresa; outras, algumas caras estranhas, mas gosto de pensar que essas caras são as mesmas quando digo que sou fã de Buffy, a caça-vampiros ou alguma comédia ruim da televisão.

Estar fora do armário, me propiciou uma "verdade" que nunca tive antes. E sempre que encontro pessoas que me perguntam se isso realmente é uma vantagem, digo que sim. Perdi amigos? Não que eu saiba, se perdi não percebi, pois alguém que ainda pensa nesses termos fez bem em perder contato comigo. Ganhei amigos. Muitos. A minha orientação sexual nunca foi motivo para piada em nenhum ambiente em que estive e quando foi eu estava no meio da piada e isso é bom. Dar risada de nós mesmos é bom. Seja da barriga, do dinheiro, do amor, do carro ou dos nossos estereótipos...

Claro que fazer pesquisa em “Lesbian, Gay, Bisexual and Transgender and Queer Studies” ajuda e muito, mas ao mesmo tempo, decidir a minha orientação sexual pela área de estudo é querer dizer que um botanista é uma planta, não? Mas entendo a associação e vou descontruindo mitos aos poucos.

E à medida que fui me aprofundando na minha pesquisa, fui percebendo questões, incertezas ou como dizem em inglês “glitches” na área que me fizeram pensar em muitas coisas. Ultimamente fala-se muito em fluidez de sexualidade, de rótulos... algo que a academia brasileira tem falado bastante. O ativismo fala de outra maneira e da importância de se manter tais rótulos, ou bandeiras, ou identidades (não quero entrar nessa questão agora, isso me tomaria outra tese, mas afinal o que é identidade?).

Ainda não tenho a resposta sobre a questão da fluidez, dos rótulos... isso será uma discussão mais longa que talvez um dia eu consiga formular, mas sei, que com ou sem rótulos é preciso respeito e hoje também sei que o silêncio é uma das maiores formas de desrespeito que encontro.

De qualquer maneira o que mais me entristece hoje é perceber as diferentes formas de desrespeito que me deparo no dia-a-dia e que o meu armário destruído se transforma em um sistema de contaminação coletiva. E é neste ponto que quero chegar: o meu experimento atual:

Andei postando no facebook as mais diversas coisas sobre o meu cotidiano, e sobre questões sérias e políticas – importantes para mim – sobre orientação sexual, sexualidade... E percebi que muitos dos meus amigos no facebook não se manifestam quando o assunto é abertamente gay e é aí que entra a meu sistema de contaminação. O silêncio é arma de segurança de muitos deles. Como que se um “like” ou um “comment” automaticamente os colocaria na mesma categoria em que eu estou agora, portanto, ser gay é algo que se contamina, que pode passar de um para outro. Irônico, não?

Isso me faz lembrar de uma história que ouvi há muitos anos atrás de um jovem de ensino médio que ouviu de seu namorado que não andasse com ele na escola porque ele era muito gay... Sim, isso aconteceu e imagino que não tenha sido a única vez. Da mesma maneira que muitos dos gays que conheço tem vergonha de andar com gays afeminados para não serem “contaminados” pela “gayzisse” do outro. Triste, não? Mas verdade.

Assim como as críticas ao Félix e ao Niko são todas baseadas na afetação deles. Poderíamos criticar o roteiro, a história, mas querer apagar personagens gays só porque são afeminados é quase que o mesmo que querer se "deletar" do mundo real mantendo a sua vida online apática para que os outros finjam que acreditam na sua imagem... O Mateus Solano em uma entrevista para a Isto É, disse algo super interessante e que cabe a muitas pessoas que conheço: 

                   "Quando cai a máscara, quem sai do armário é a sociedade que está em volta do Félix e          a família dele. Eles que têm que sair do armário e aceitá-lo como ele sempre foi. Por mais que falasse que não era gay, ele gritava isso aos sete ventos".

E não percebemos - ou fingimos não perceber - que vamos nos deixando ser massacrados por um ideal, uma imagem de homem que tem nos oprimido (todos: homens, mulheres, crianças... sejam héteros, gays ou assexuais) por anos e anos, achando que ser assim - macho - é que é normal.

E estar fora do armário, entre todas as vantagens que me trouxe, a maior desvantagem não veio de um estranho na rua, no meu trabalho ou de um aluno. Veio dos meus amigos, daqueles que insistem no armário, no segredo ou na mentira que eles criaram para si mesmos: “isso é parte da minha vida privada e ninguém tem nada a ver com isso”. E dessa maneira, terminamos como cidadãos de segunda classe.

Espero não ouvir que as coisas são diferentes aqui, que temos mais liberdade... Há mais leis aqui, mas isso porque existe uma grande massa que lutou por aprovações de leis contra homofobia, algo que me parece fundamental neste momento. O que não há aqui como há no Brasil é medo. Medo que compartilhei por muito tempo. Mas quero tentar diminuir isso e para tanto há que se haja voz. E muitas. Um dos momentos mais importantes para mim foi aí no Brasil mesmo, ou melhor, na internet brasileira (se acontece no facebook acontece no Brasil mesmo, né?) quando a minha irmã escreveu um texto lindo sobre sexualidade para um conhecido homofóbico dela. 

Entre todas as justificativas acadêmicas que encontrei na minha pesquisa a que tenho tentado usar é em relação ao capitalismo tardio, ou seja, o subdesenvolvimento econômico "atrasou" a política do coming out no Brasil, mas não acho que essa seja a única razão. A política corporal e sexual do Brasil moldada em seus séculos de binarismo também cooperam para que a política americana do coming out não seja implantada no Brasil.  E não que o padrão americano seja o modelo para nós, pelo contrário. Porém, é preciso saber qual é a nossa iniciativa - e que não seja o silêncio! O preconceito ainda é forte mesmo entre os gays e o apego (na falta de uma palavra melhor) com as vantagens que a vida no armário proporciona dificulta o coming out no Brasil. Porém o Brasil já é um país desenvolvido e se o capitalismo propicia a vida LGBTT,o que ainda impede hoje nos grandes centros que exista uma política mais massiva de coming out? Qual é ainda o nosso medo?

E enquanto me preparo para mais uma temporada em Nova York ensaio olhar nos olhos desses meus amigos e perguntar “E aí? Vale a pena ser meu amigo?” Não podemos esperar para que os outros façam. Nós teremos que fazer e eu gostaria de dizer algo que ainda não foi dito, mas não há novidade nisso. Estamos um pouco atrasados, mas podemos seguir nosso rumo da nossa maneira. Ter um dia para andar de mão dada na rua não é mais suficiente. Temos que fazer isso todos os dias. É possível ser advogado, médico, professor, pediatra, psicólogo e ser gay (ah essa tal de identidade...). Já passamos a metade do caminho, mas a verdade é que o caminho é nosso e não dos outros. E nós que temos que trilhá-lo e a beleza de tudo isso é que podemos fazer em português mesmo, na nossa língua e cometer os nossos erros e comemorar os nossos acertos. Ainda temos tempo. Há muito tempo.


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Mais sobre Nova York


Manhattan

Semana passada eu “desabafei” sobre os brasileiros que vêm conhecer Nova York e recebi alguns emails de uns amigos falando que eles tinham se identificado com o texto. Mas que não era só isso, não.   Não é todo mundo que é assim, tem muita gente legal que visita NY e aproveita a cidade numa boa. 

Acho que no fundo o que eu queria reclamar na semana passada era dessa constante necessidade de passar por tudo como se fosse obrigatoriedade, fazer uma lista de compras para tudo:

Conhecer Nova York 
Conhecer Paris 
Subir na Torre Eiffel 
Subir no Empire State...

Mas sentir, aproveitar, olhar, deixar o queixo cair ninguém se permite. É preciso comprar, comprar, comprar.... E mesmo as compras são apressadas. Vale pelo preço, nem olhamos o que queremos. Te digo, uma passagem por uma grande loja de Nova York é um fenômeno assustador.
E mais uma vez, volto ao olhar daquele meu amigo espanhol para o Empire State: deixar o novo e o velho te pegarem de surpresa. E deixar o que está disponível, de graça nos tomar de emoção.

A vida vem sendo intermediada pelo cartão de crédito e pela câmera do celular. Ninguém vê nada, todo mundo filma, ninguém observa nada, todo mundo compra algo. 

Não é o fato de uma pessoa querer tirar foto em frente ao edifício do “caça-fantasmas”, ou do John Lennon,  ou ainda querer visitar a biblioteca pública de Nova York só porque foi a cena do não-casamento de Carrie Bradshaw que me incomoda, é o fato da pessoa nem querer visitar a biblioteca pública, nem querer saber o que é, onde está ou nem procurar saber algo sobre a região onde John Lennon morava e o que há no parque ali perto.

O que me enlouquece é transformar a cidade em um centro de compras, ou transformar a vida em um shopping center. Tudo que pode ser comprado, deve ser comprado. É a falsa ilusão da marca, da grife (Olha, vou te contar um segredo. As grandes marcas fazem coleções separadas para as lojas e para os outlets. Provavelmente aquela bolsa cara que você comprou nunca esteve nas vitrines das lojas caras da Madison Avenue). Nova York em si é uma grife e apesar de todo o luxo que adoram envolvê-la (e isso eu culpo, entre outras coisas, aquela série que quase me enganou por um tempo “Sex and the city”), é uma cidade que pode-se aproveitar sem ter que comprar muito. Basta olhar, sentir, respirar, tocar (não muito porque ainda é a América...) e se deixar levar.

Sobre essa história de aproveitar a cidade, no meio do texto anterior e eu falei das cenas de filmes e seriados de televisão que nos marcam e conversando com uma amiga sobre isso vimos que o problema não é querer reviver uma cena daquele filme, daquele livro ou daquele seriado, o problema é deixar a cidade – ou a vida – passar rapidamente demais, sem que nada (que não seja algum item comprado) nos deixe feliz.

Esse romantismo de Nova York é um dos seus charmes e também faz parte daqueles comentários anteriores: as pessoas não querem aproveitar o que está ao seu redor. Nova York é uma cidade que te impressiona a cada minuto, seja nos museus, nos prédios ou na rua. É uma cidade para ser vista, não para ser comprada (apesar de saber que parte do seu markenting para estrangeiros está no poder e facilidade de compras). Eu entendo bem o paradoxo dessa frase. Afinal é o epicentro capitalista do mundo, porém apesar de tanta sujeira ser lavada em Wall Street, é uma cidade que te proporciona muita coisa sem gastar nada.


E sobre aquelas cenas de filmes....

Filmagem de "Inside Llewyn Davis" dos Irmãos Coen
Filmagens pela cidade são constantes.  É praticamente impossível passar uma semana em Nova York sem encontrar com equipes de filmagem, caminhões, trailers, extras.... Isso faz parte da cidade. E aquela constante curiosidade para saber qual é o filme ou a série é parte da gente que passa pelas ruas.

Columbia, por exemplo,  é um centro de filmagens, só essa semana filmaram “Orange is the new black” e “Law and Order” (que já é comum). Semana passada também estavam filmando dentro do Tom’s diner (o famoso diner do Seinfeld) que fica ao lado do campus. Ano passado passaram uma semana filmando na porta do departamento onde dou aula o filme novo dos irmão Cohen que sai essa semana. E isso é só o que me vem na cabeça agora.
Filmagem em NY. Foto da Claudia Piu
claudiapiu.com

Tem dessas coisas aqui, você chega no trabalho e a rua está toda modificada com cara de anos 50. Mas como todo residente, a gente tem que fazer cara feia e reclamar da amolação que isso causa. Mas aí eu me lembro daquela falta de “maravilhamento” e me divirto. A cidade-personagem, como muitos dizem, está constantemente sobre os holofotes e caminhões de filmagens.

Filmagem em NY. Foto da Claudia Piu
claudiapiu.com



Nova York pode ser sentida assim, revivendo filmes, revivendo momentos, recriando momentos clássicos. A cidade tem sido personagem de tanto filme, de tanta história que transformá-la num centro de compras é simplificar a experiência que cada um de nós pode ter aqui mesmo. É uma cidade para flanar.

Eu faço isso às vezes. Gosto de tirar fotos em lugares que reconheço de filmes. Devo admitir que dependendo da situação ainda me dá uma certa vergonha porque não é só de filme do Woody Allen que a nossa memória emotiva é feita....
Pagando de Olivia Benson.


A foto aí do lado é um desses exemplos, uma pequena homenagem a um dos meus prazeres culposos "guilty pleasures": Law and Order: SVU. Toda quarta-feira à noite aqui na televisão. 

Vamos deixar as compras de lado e vamos flanar mais, olhar a cidade de outro jeito, experimentar Nova York...

Na minha cabeça cinematográfica (enquanto toca "I see you" do Mika) uma horda de turistas deixa as sacolas no chão e começa a caminhar pelas ruas olhando para tudo e para todos. Final apoteótico, eu sei... Cresci vendo novela. 

Amanhã vou caminhar pela cidade e procurar tirar mais uma foto de algum filme que me marcou.