quinta-feira, 20 de março de 2014

Por que não reclamar mais um pouco dos visitantes de Nova York (e de todos os outros lugares por onde passo)?


Há um tempo eu comentei sobre as pessoas que tiram foto de tudo e só tiram foto e acabam perdendo um pouco a mirada, o olhar para o nosso redor. A perspectiva das nossas viagens é totalmente intermediada pela câmera do celular ou pela super câmera gigante que usamos três features.  Ninguém viaja mais, ninguém olha, as pessoas tiram foto e postam. Postar virou febre, você vai andando pelas ruas, pelos museus e tudo o que as pessoas fazem é isso, tirar foto e postar. Instagram, facebook…. coisa demais. 

Semana passada eu fui à Bienal daqui, uma exposição local em um museu menor que poucos turistas vão, mas esse fenômeno imagético não é só de turista, não. É geral. Durante a minha caminhada pelo museu uma pessoa ficou brava comigo porque eu passei na frente da foto. E dessa vez nem foi de propósito. Mas nem caminhar eu posso mais! Se eu tiver que parar em um museu a cada pessoa que tira foto eu não caminho, tenho que escolher um círculo no meio do andar e ficar parado ali o tempo todo até que me confundam com uma instalação e passem a tirar fotos de mim também. E para piorar ainda mais a nossa self-situation,  semana passada um jovem conseguiu superar qualquer expectativa de falta de respeito ao destruir uma estátua em um museu!

Me chamem de radical, mas eu acho que há lugares em que fotos devem ser proibidas. Museu é um desses lugares. Me expliquem qual a razão de tirar foto de um quadro? Por que deixar de observar o quadro e guardar a imagem na memória. Além de radical, me chamem de chato, mas eu ainda sou daqueles que andam com caderninho e lápis na mão para ir em museu….

Uma pequena digressão….
Sobre fotos com quadros, Jacqueline Livingston já fez isso há  mais de vinte anos. Ela ia tirando fotos dela na frente de quadros famosos. Essa ao lado é a minha favorita. Mas é preciso lembrar do trabalho dela como feminista, artista e fotógrafa e quais imagens ela escolheu para documentar esse narcisismo feminista (ela perdeu o emprego em Cornell nos anos 70 por tirar fotos de seus filhos pequenos nus…. sim, há muito mais puritanismo aqui do que imaginamos). 


Voltando aos nossos retratos….

Em janeiro quando visitei Inhotim, vi várias pessoas tirando foto de tudo, mesmo com as insistentes placas proibindo foto. Eu tive que ser chato e pedir para uma mulher parar de tirar foto dentro de uma instalação - um iglu minúsculo que fazia um jogo de luzes. Além da luz do artista ainda tinha o flash da desavisada…. - Ao longo do parque/ museu/ galeria pessoas iam tirando foto de tudo, andando com o ipad na mão filmando e "narrando" o que viam. A era do rádio na era da internet…. nem o Gilberto Gil conseguiu prever essa. 

E quando a gente acha que não pode piorar a gente consegue ir mais fundo.

Pois agora, além de tirar foto de tudo, nós resolvemos dar as costas ao mundo e fazer um esforço para aparecer na foto. Nós viramos a câmera para nós mesmos. Não olhamos mais para o que está ao nosso redor, e olhamos para nós mesmos. E o narcisismo ganha dimensões que não haverá lago suficiente para que todos se afoguem. 

E a gente compra as ideias mercadológicas e de marketing como algo genial e divertido. Essa história de "selfie" começou com celebridades, pessoas famosas que perceberam que poderiam ganhar mais dinheiro ainda com o público, pobres seguidores de selfies. Por que tirar foto em um restaurante? Por que tirar foto usando uma determinada roupa? Por que tirar foto usando determinada marca? Publicidade quase de graça…. Dizem por aqui que essas celebridades chegam a receber até 20.000 dólares por foto, por um simples "endorsement". E a gente acredita, a gente compra e a gente se vende fazendo a propaganda de graça. E as grandes empresas (porque essas celebridades que vivem disso mais do que pessoas são empresas) vão ganhando dinheiro. 

E a coisa continua a piorar... Os selfies já eram febres publicitárias mas bastou todo mundo cair na armadilha promocional da super carismática Ellen Degeneris que os selfies viraram mais moda ainda. Em uma genial tacada de marketing, a marca do celular da Ellen conseguiu em segundos tirar o twitter do ar e a Ellen provavelmente ficou alguns milhões mais rica. E nós, passamos a copiá-la desesperadamente. 

Meus passeios pelo facebook já eram desanimadores, agora então…. Selfie, selfie…. E o mais triste foi ver ator do Globo pagando pau para gringo fazendo selfie em grupo. E há algo que também precisamos discutir com urgência: esse excesso de felicidade. Gente, sério, dá para ser tão feliz assim? Sério mesmo? É preciso ser assim? 

Ainda bem que há pessoas que tentam ir além, quebrar um pouco a nossa monotonia e nos fazer pensar (e ainda dizem que arte não é importante). Como esse artista americano que fez uma série de auto-retratos falando sobre o seu vício heroína. Não sei se são selfies, mas que nos fazem abrir os olhos, isso sim. 

Eu, de selfie, comigo mesmo tentando entender os mecanismos
de uma auto-foto-selfie em um museu
Outro dia pensei em criar o anti-selfie. A minha foto de costas para a camera de olho para o mundo a minha frente. Mas além de me dar preguiça, resolvi que o meu anti-selfie é simplesmente não tirar foto mesmo. Ninguém precisa saber da minha cara (é a mesma, com mais rugas), ou de onde como ou onde sento no avião. Ninguém precisa saber disso, eu acho… Quero saber de outras coisas, mas posso esperar para te ver,  quem sabe…

Estamos no fim dos fins, mas pelo menos esse fim vai ser bem documentado com todo muito feliz pois como se não bastasse olhar o mundo através da câmera com um sorriso de ponta a ponta agora é a nossa cara de costas pro mundo.

Me parece que estamos caminhando de costas e também me parece que é o jeito que todo mundo quer caminhar agora. Com um grande sorriso na boca e de costas para tudo e para todos e todos os outros de frente para as nossos celulares, computadores, para as nossas telas com preguiça de sentir aquela dorzinha no olho quando a gente levanta a cabeça da tela. 


domingo, 9 de março de 2014

Quem disse que você é homem?


"De que te serve ser um menino, se vai crescer e se transformar em um homem?"
Gertrude Stein, "Autobiografia de todo mundo"


Hoje enquanto eu lia o jornal sobre grupos feministas e cantadas na rua me lembrei de uma conversa que tive com amigos em São Paulo. Conversávamos sobre machismo, feminismo e aquele papo chato de que feminismo é coisa de mulher mal-amada...

NOTA: O assunto me parece mais atual do que nunca. Em dias como os de hoje em que uma cantora como Beyoncé lança um vídeo erótico dançando semi-nua para um homem totalmente vestido e ainda diz em francês no meio da música “os homens pensam que as feministas odeiam o sexo”, tal assunto faz-se mais atual do que nunca.

… Pois enquanto falávamos sobre esses assuntos em São Paulo, eu disse que havia horas que me dava vergonha de ser homem. Foi quando alguém disse – rindo – “mas você não é homem”. E todos na mesa riram. Eu também. Há um certo orgulho meu em não ser homem, pelo menos em não ser esse homem que grita “gostosa” na rua. Mas ao mesmo tempo, entre tantos gays na mesa, no momento que aquilo foi dito houve uma certa masculinização dos modos, dos jeitos, quase que desistindo do suco e apelando para a cerveja. “Não ser homem” incomodou muita gente na mesa.

Mas por que não ser homem é algo que ainda incomoda tanto? No fundo, quando ouvimos isso ou algo semelhante, muitos de nós – gays, veados, bichas, homossexuais – seja como for que chamamos a nós mesmos, nos incomodamos com esse papo de não sermos homens:

Deixar de ser homem é um exercício poderoso, é abrir mão de certas vantagens que ganhamos. Deixar de ser homem é querer ser equiparado à mulher. E isso é algo que poucos queremos. É ganhar menos, é ter seu nome gritado na rua, é não ser respeitado quando você quer consertar o carro, é não ser respeitado como profissional, é passar parte da sua vida aceitando que sua sexualidade é limitada, que seu orgasmo não é como o do outro, é acreditar que ter tesão com pornografia é coisa de homem, é assistir pornografia e entender que você é só um receptáculo que adorar levar porrada e ser xingado, afinal não querer ser homem é admitir que há uma diferença gritante entre nós que fingimos não perceber.

E ser gay – nem homem, nem mulher – nesses termos machistas é ser alguém que admite ser mais parecido com a mulher que com o homem. E isso vale a pena? Para a grande maioria dos gays urbanos que se silenciam em nome de respeito não vale. E o nosso silencioso armário, além de ofensas a nós mesmo, é também uma ofensa ao “ser mulher”. E mais uma vez, a mulher não escapa da afronta. Nesses termos em que ser gay é negar a masculinidade, é renunciar ao “ser homem”, quando nos ofendemos com “você nem homem é”, ofendemos diretamente a mulher. Pois se não queremos não-ser-homem, o que nos resta?

Na nossa sociedade binária, há homens e mulheres. E há, de acordo com a psiquiatria aqueles que não se conformam nem com um, nem com o outro – trans... – E para muitos ser gay é estar no meio dos dois. É querer ser mulher num corpo de homem. Porém para muitos gays isso é coisa de travesti, para outros de transexual e a matemática não se fecha nunca. E nem deve. Somos homens, mulheres, trans, ou nada, ou somos um pouco de tudo ao mesmo tempo. Há homens que gostam de homens, homens que gostam dos dois, homens que não gostam de nada, mas acima de tudo há homens que se sentem melhores que outros simplesmente por serem homens. E esse último está involucrado em todas as manifestações masculinas da nossa sociedade machista.

Há um outro caminho? Hipoteticamente, sim. Há o caminho “ser gente”. Simplesmente. Ser uma pessoa que respeita os outros, uma pessoa com características únicas ou coletivas, mas uma pessoa e nada mais. Porém, digo hipoteticamente porque em um sociedade em que a mulher ainda é tratada como um ser menor, essa alternativa ainda não me vale. Pois ao “ser gente” fecho os olhos para a opressão masculina com a mulher que nos destrói aos poucos todos os dias. Ainda não dá. Preciso escolher ir além de ser homem, ser mulher e até de ser gente. É preciso ser alguém que não se conforme com o homem que grita “gostosa” na rua, com o homem que acha que não há problema em tirar uma foto por debaixo da saia de uma mulher, ser uma pessoa que não se conforma com a exploração corporal de uma mulher dançando pelada para um homem vestido, ou seja é não se conformar com uma infinidade de fatos do nosso breve cotidiano.


Vale a pena ser homem? Se você abrir mão da verdade ao seu redor, sim, vale. Muito. Mas ignorar que suas colegas de trabalho ainda ganham menos que você, ignorar que suas parceiras/amigas/mulheres têm que pensar no que vão vestir para não serem confundidas com um simples objeto sexual, ou por temer serem estupradas,  ignorar a negação da sexualidade feminina em nome do orgasmo masculino, ignorar a falta de espaço na política, ignorar todas essas diferenças faz com que ser homem não valha a pena nem por um minuto. 

Ainda que internamente me doa saber que não sou homem, é o meu exercício diário aceitar que esse homem que não abre mão de suas vantagens já não sou.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

E no dia do grande beijo na TV, um pouco sobre o meu não-beijo

E no meio de tanto texto sobre a vida fora do armário, há aquele dia em que a gente, disfarçadamente, volta para o armário...

Eu venho escrevendo este texto há uma semana - desde domingo passado - e por uma coincidência ou alinhamento astral acabo publicando logo depois do beijo do Félix e do Niko na televisão. E logo depois do primeiro beijo na novela acabo falando meu não-beijo.

Domingo à noite, voltando para a casa depois da festa de uma amiga eu estava no metrô com meu namorado (ou amigo se você ainda não consegue entender que pessoas do mesmo sexo namoram e criam relações afetivas entre el@s) e eu desceria primeiro. Como muitos casais fazem quando nos encontramos e quando nos despedimos há um breve beijo de oi ou de tchau. No rosto, na bochecha, no lábio, um selinho…. Pois naquela noite, já na parada anterior a minha, nos olhamos e pensamos na mesma coisa, "como dizer tchau aqui?"

Metrô idéal?
Já tínhamos olhado para os lados e aquele vagão estava particularmente ameaçador. Cheio de homens, sentados, com cara de bravo, e aos poucos aquela sensação - infundada - de que todos estavam nos olhando. E nós apenas lado a lado conversando como muitas outras pessoas no vagão. 

Em poucas palavras, decidimos por um breve tchau e saí do metrô. Não, nós não apelamos para o tapinha no ombro, "see you, dude" ou algo do tipo, simplesmente dissemos "tchau". 

Desci do metrô incomodado, pensando naquela situação, ainda na rua, liguei de volta para ele. Era preciso confirmar que estávamos bem e de certa forma tentar entender o que tinha acontecido. Pensando na nossa covardia de não dizermos boa noite com um simples beijo, chegamos cada um na sua casa e nos falamos pelo telefone. O nosso "não-beijo" tinha ficado na nossa cabeça o tempo inteiro. Nos falamos brevemente, pedimos desculpa pelo comportamento infantil e medroso e seguimos pensando nessa situação. 

Essa historinha simples de parágrafos curtos, na verdade mascara algo muito mais dolorido do que a simples decisão de "esconder" nosso relacionamento.

Primeiro, o fato de estarmos juntos no mesmo metrô lado a lado e automaticamente nos sentirmos ameaçados por imagens ao nosso redor. Quem garante o que somos? Irmãos, primos, amigos, amantes…. Mas o nosso medo era a nossa declaração de que algo estava fora da ordem entre nós. E que ordem? Nós, que passamos horas escrevendo sobre o nosso preconceito, questionando essa tal ordem que diz que normal é mulher casar com homem e que o resto é minoria ou divergências da norma nos deparamos, ainda que por um breve momento, com nós mesmos em frente aos espelhos nos sentindo fora da ordem.

Segundo, pelo nosso julgamento a partir da aparência das pessoas, algo que nós mesmos passamos diariamente e mesmo assim acabamos sendo perpetuadores de tais estereótipos. Um vagão de metrô lotado de homens, mulheres, jovens e meia-idade….  e sem nem conhecê-los, julgamos a todos como homofóbicos e possíveis agressores, pela simples cara deles. Nada mais. Olhamos e nos sentimos ameaçados. Não houve nada, nem remotamente agressivo neles, a não ser o nosso próprio medo e pré-julgamento das pessoas ao nosso redor. A triste cara emburrada de um indivíduo nos ameaça.

Terceiro, mesmo tão fora do armário como achamos estar ainda há momentos em que nos sentimos forçados a voltar para o armário. Momentos que nos arrependemos depois pois sabemos que esse medo é, na maioria das vezes, nosso. Algo que eu mesmo já falei aqui outras vezes. Nós que ainda nos aceitamos…

Ou seja, eu ainda não me aceitei? Ou tenho medo de que ainda existam pessoas que se incomodem com a minha presença simplesmente? Sem resposta, o que me faz refletir é que mesmo hoje há momentos em que me retraio de medo e desisto de enfrentar o meu próprio monstro homofóbico. Algo que muitos dos meus amigos enfrentam diariamente ao se levantar da cama e seguir para o trabalho. Eu achava que já tinha me livrado totalmente dessa "capa protetora" que acreditamos esconder ou ocultar parte da nossa identidade dos outros. Porém, cá estou usando essa capa em um vagão do metrô.

Ou será que estava usando mesmo essa capa? Pois talvez aquelas pessoas no metrô nem olharam para mim, nem me viram, talvez tenha sido apenas o meu egogay inflamado. Algo que muitos LGBT se identificam. Ao mesmo tempo que queremos esconder, estamos - secretamente - gritando para os outros que nos arranquem do armário. Nos perguntem, nos coloquem na parede como vários alunos meus fizeram ao longo da minha trajetória e eu nunca tive coragem de responder (sim, sou gay). 


Voltando àquela noite


Chegando em casa eu ligo a televisão e começo a assistir uma reportagem sobre um possível - elegedly, como dizem aqui - ataque homofóbico a um jornalista de Nova Iorque.

Mais um ataque homofóbico na cidade ficava ressonando na minha cabeça….

E aquela notícia me faz pensar que talvez eu tivesse razão em ter evitado o beijo no metrô, afinal essas coisas ainda acontecem e poderíamos ter sido atacados. Eu estava certo. Segui a intuição e cheguei a salvo em casa. Estava certo...

Mas a verdade é que eu sei que estava errado. Nada teria acontecido ali e eu, por medo e vergonha, me encolhi frente a um grupo de bullys imaginários. Me retraí frente a minha própria mente que ainda me bully frente ao que eu gosto de achar que já tenho tranquilo. 




quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O armário paulistano e a volta para Nova York



Desde que saí do Brasil minha vida mudou em muitos aspectos. Há coisas que são melhores, outras não, algumas melhorando... mas a vida segue e eu vou caminhando... Porém talvez o principal ponto de mudança tenha sido a minha vida totalmente fora do armário. Hoje, não escondo, não omito, não minto. Se me perguntam se tenho namorada respondo que não e falo sobre a minha sexualidade de maneira natural e tenho a maior de todas as certezas que a minha maneira de falar acalma as pessoas e traz aliados para um mundo mais livre de tantas amarras. De fato, algumas vezes encontro surpresa; outras, algumas caras estranhas, mas gosto de pensar que essas caras são as mesmas quando digo que sou fã de Buffy, a caça-vampiros ou alguma comédia ruim da televisão.

Estar fora do armário, me propiciou uma "verdade" que nunca tive antes. E sempre que encontro pessoas que me perguntam se isso realmente é uma vantagem, digo que sim. Perdi amigos? Não que eu saiba, se perdi não percebi, pois alguém que ainda pensa nesses termos fez bem em perder contato comigo. Ganhei amigos. Muitos. A minha orientação sexual nunca foi motivo para piada em nenhum ambiente em que estive e quando foi eu estava no meio da piada e isso é bom. Dar risada de nós mesmos é bom. Seja da barriga, do dinheiro, do amor, do carro ou dos nossos estereótipos...

Claro que fazer pesquisa em “Lesbian, Gay, Bisexual and Transgender and Queer Studies” ajuda e muito, mas ao mesmo tempo, decidir a minha orientação sexual pela área de estudo é querer dizer que um botanista é uma planta, não? Mas entendo a associação e vou descontruindo mitos aos poucos.

E à medida que fui me aprofundando na minha pesquisa, fui percebendo questões, incertezas ou como dizem em inglês “glitches” na área que me fizeram pensar em muitas coisas. Ultimamente fala-se muito em fluidez de sexualidade, de rótulos... algo que a academia brasileira tem falado bastante. O ativismo fala de outra maneira e da importância de se manter tais rótulos, ou bandeiras, ou identidades (não quero entrar nessa questão agora, isso me tomaria outra tese, mas afinal o que é identidade?).

Ainda não tenho a resposta sobre a questão da fluidez, dos rótulos... isso será uma discussão mais longa que talvez um dia eu consiga formular, mas sei, que com ou sem rótulos é preciso respeito e hoje também sei que o silêncio é uma das maiores formas de desrespeito que encontro.

De qualquer maneira o que mais me entristece hoje é perceber as diferentes formas de desrespeito que me deparo no dia-a-dia e que o meu armário destruído se transforma em um sistema de contaminação coletiva. E é neste ponto que quero chegar: o meu experimento atual:

Andei postando no facebook as mais diversas coisas sobre o meu cotidiano, e sobre questões sérias e políticas – importantes para mim – sobre orientação sexual, sexualidade... E percebi que muitos dos meus amigos no facebook não se manifestam quando o assunto é abertamente gay e é aí que entra a meu sistema de contaminação. O silêncio é arma de segurança de muitos deles. Como que se um “like” ou um “comment” automaticamente os colocaria na mesma categoria em que eu estou agora, portanto, ser gay é algo que se contamina, que pode passar de um para outro. Irônico, não?

Isso me faz lembrar de uma história que ouvi há muitos anos atrás de um jovem de ensino médio que ouviu de seu namorado que não andasse com ele na escola porque ele era muito gay... Sim, isso aconteceu e imagino que não tenha sido a única vez. Da mesma maneira que muitos dos gays que conheço tem vergonha de andar com gays afeminados para não serem “contaminados” pela “gayzisse” do outro. Triste, não? Mas verdade.

Assim como as críticas ao Félix e ao Niko são todas baseadas na afetação deles. Poderíamos criticar o roteiro, a história, mas querer apagar personagens gays só porque são afeminados é quase que o mesmo que querer se "deletar" do mundo real mantendo a sua vida online apática para que os outros finjam que acreditam na sua imagem... O Mateus Solano em uma entrevista para a Isto É, disse algo super interessante e que cabe a muitas pessoas que conheço: 

                   "Quando cai a máscara, quem sai do armário é a sociedade que está em volta do Félix e          a família dele. Eles que têm que sair do armário e aceitá-lo como ele sempre foi. Por mais que falasse que não era gay, ele gritava isso aos sete ventos".

E não percebemos - ou fingimos não perceber - que vamos nos deixando ser massacrados por um ideal, uma imagem de homem que tem nos oprimido (todos: homens, mulheres, crianças... sejam héteros, gays ou assexuais) por anos e anos, achando que ser assim - macho - é que é normal.

E estar fora do armário, entre todas as vantagens que me trouxe, a maior desvantagem não veio de um estranho na rua, no meu trabalho ou de um aluno. Veio dos meus amigos, daqueles que insistem no armário, no segredo ou na mentira que eles criaram para si mesmos: “isso é parte da minha vida privada e ninguém tem nada a ver com isso”. E dessa maneira, terminamos como cidadãos de segunda classe.

Espero não ouvir que as coisas são diferentes aqui, que temos mais liberdade... Há mais leis aqui, mas isso porque existe uma grande massa que lutou por aprovações de leis contra homofobia, algo que me parece fundamental neste momento. O que não há aqui como há no Brasil é medo. Medo que compartilhei por muito tempo. Mas quero tentar diminuir isso e para tanto há que se haja voz. E muitas. Um dos momentos mais importantes para mim foi aí no Brasil mesmo, ou melhor, na internet brasileira (se acontece no facebook acontece no Brasil mesmo, né?) quando a minha irmã escreveu um texto lindo sobre sexualidade para um conhecido homofóbico dela. 

Entre todas as justificativas acadêmicas que encontrei na minha pesquisa a que tenho tentado usar é em relação ao capitalismo tardio, ou seja, o subdesenvolvimento econômico "atrasou" a política do coming out no Brasil, mas não acho que essa seja a única razão. A política corporal e sexual do Brasil moldada em seus séculos de binarismo também cooperam para que a política americana do coming out não seja implantada no Brasil.  E não que o padrão americano seja o modelo para nós, pelo contrário. Porém, é preciso saber qual é a nossa iniciativa - e que não seja o silêncio! O preconceito ainda é forte mesmo entre os gays e o apego (na falta de uma palavra melhor) com as vantagens que a vida no armário proporciona dificulta o coming out no Brasil. Porém o Brasil já é um país desenvolvido e se o capitalismo propicia a vida LGBTT,o que ainda impede hoje nos grandes centros que exista uma política mais massiva de coming out? Qual é ainda o nosso medo?

E enquanto me preparo para mais uma temporada em Nova York ensaio olhar nos olhos desses meus amigos e perguntar “E aí? Vale a pena ser meu amigo?” Não podemos esperar para que os outros façam. Nós teremos que fazer e eu gostaria de dizer algo que ainda não foi dito, mas não há novidade nisso. Estamos um pouco atrasados, mas podemos seguir nosso rumo da nossa maneira. Ter um dia para andar de mão dada na rua não é mais suficiente. Temos que fazer isso todos os dias. É possível ser advogado, médico, professor, pediatra, psicólogo e ser gay (ah essa tal de identidade...). Já passamos a metade do caminho, mas a verdade é que o caminho é nosso e não dos outros. E nós que temos que trilhá-lo e a beleza de tudo isso é que podemos fazer em português mesmo, na nossa língua e cometer os nossos erros e comemorar os nossos acertos. Ainda temos tempo. Há muito tempo.


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Mais sobre Nova York


Manhattan

Semana passada eu “desabafei” sobre os brasileiros que vêm conhecer Nova York e recebi alguns emails de uns amigos falando que eles tinham se identificado com o texto. Mas que não era só isso, não.   Não é todo mundo que é assim, tem muita gente legal que visita NY e aproveita a cidade numa boa. 

Acho que no fundo o que eu queria reclamar na semana passada era dessa constante necessidade de passar por tudo como se fosse obrigatoriedade, fazer uma lista de compras para tudo:

Conhecer Nova York ✔
Conhecer Paris ✔
Subir na Torre Eiffel ✔
Subir no Empire State...

Mas sentir, aproveitar, olhar, deixar o queixo cair ninguém se permite. É preciso comprar, comprar, comprar.... E mesmo as compras são apressadas. Vale pelo preço, nem olhamos o que queremos. Te digo, uma passagem por uma grande loja de Nova York é um fenômeno assustador.
E mais uma vez, volto ao olhar daquele meu amigo espanhol para o Empire State: deixar o novo e o velho te pegarem de surpresa. E deixar o que está disponível, de graça nos tomar de emoção.

A vida vem sendo intermediada pelo cartão de crédito e pela câmera do celular. Ninguém vê nada, todo mundo filma, ninguém observa nada, todo mundo compra algo. 

Não é o fato de uma pessoa querer tirar foto em frente ao edifício do “caça-fantasmas”, ou do John Lennon,  ou ainda querer visitar a biblioteca pública de Nova York só porque foi a cena do não-casamento de Carrie Bradshaw que me incomoda, é o fato da pessoa nem querer visitar a biblioteca pública, nem querer saber o que é, onde está ou nem procurar saber algo sobre a região onde John Lennon morava e o que há no parque ali perto.

O que me enlouquece é transformar a cidade em um centro de compras, ou transformar a vida em um shopping center. Tudo que pode ser comprado, deve ser comprado. É a falsa ilusão da marca, da grife (Olha, vou te contar um segredo. As grandes marcas fazem coleções separadas para as lojas e para os outlets. Provavelmente aquela bolsa cara que você comprou nunca esteve nas vitrines das lojas caras da Madison Avenue). Nova York em si é uma grife e apesar de todo o luxo que adoram envolvê-la (e isso eu culpo, entre outras coisas, aquela série que quase me enganou por um tempo “Sex and the city”), é uma cidade que pode-se aproveitar sem ter que comprar muito. Basta olhar, sentir, respirar, tocar (não muito porque ainda é a América...) e se deixar levar.

Sobre essa história de aproveitar a cidade, no meio do texto anterior e eu falei das cenas de filmes e seriados de televisão que nos marcam e conversando com uma amiga sobre isso vimos que o problema não é querer reviver uma cena daquele filme, daquele livro ou daquele seriado, o problema é deixar a cidade – ou a vida – passar rapidamente demais, sem que nada (que não seja algum item comprado) nos deixe feliz.

Esse romantismo de Nova York é um dos seus charmes e também faz parte daqueles comentários anteriores: as pessoas não querem aproveitar o que está ao seu redor. Nova York é uma cidade que te impressiona a cada minuto, seja nos museus, nos prédios ou na rua. É uma cidade para ser vista, não para ser comprada (apesar de saber que parte do seu markenting para estrangeiros está no poder e facilidade de compras). Eu entendo bem o paradoxo dessa frase. Afinal é o epicentro capitalista do mundo, porém apesar de tanta sujeira ser lavada em Wall Street, é uma cidade que te proporciona muita coisa sem gastar nada.


E sobre aquelas cenas de filmes....

Filmagem de "Inside Llewyn Davis" dos Irmãos Coen
Filmagens pela cidade são constantes.  É praticamente impossível passar uma semana em Nova York sem encontrar com equipes de filmagem, caminhões, trailers, extras.... Isso faz parte da cidade. E aquela constante curiosidade para saber qual é o filme ou a série é parte da gente que passa pelas ruas.

Columbia, por exemplo,  é um centro de filmagens, só essa semana filmaram “Orange is the new black” e “Law and Order” (que já é comum). Semana passada também estavam filmando dentro do Tom’s diner (o famoso diner do Seinfeld) que fica ao lado do campus. Ano passado passaram uma semana filmando na porta do departamento onde dou aula o filme novo dos irmão Cohen que sai essa semana. E isso é só o que me vem na cabeça agora.
Filmagem em NY. Foto da Claudia Piu
claudiapiu.com

Tem dessas coisas aqui, você chega no trabalho e a rua está toda modificada com cara de anos 50. Mas como todo residente, a gente tem que fazer cara feia e reclamar da amolação que isso causa. Mas aí eu me lembro daquela falta de “maravilhamento” e me divirto. A cidade-personagem, como muitos dizem, está constantemente sobre os holofotes e caminhões de filmagens.

Filmagem em NY. Foto da Claudia Piu
claudiapiu.com



Nova York pode ser sentida assim, revivendo filmes, revivendo momentos, recriando momentos clássicos. A cidade tem sido personagem de tanto filme, de tanta história que transformá-la num centro de compras é simplificar a experiência que cada um de nós pode ter aqui mesmo. É uma cidade para flanar.

Eu faço isso às vezes. Gosto de tirar fotos em lugares que reconheço de filmes. Devo admitir que dependendo da situação ainda me dá uma certa vergonha porque não é só de filme do Woody Allen que a nossa memória emotiva é feita....
Pagando de Olivia Benson.


A foto aí do lado é um desses exemplos, uma pequena homenagem a um dos meus prazeres culposos "guilty pleasures": Law and Order: SVU. Toda quarta-feira à noite aqui na televisão. 

Vamos deixar as compras de lado e vamos flanar mais, olhar a cidade de outro jeito, experimentar Nova York...

Na minha cabeça cinematográfica (enquanto toca "I see you" do Mika) uma horda de turistas deixa as sacolas no chão e começa a caminhar pelas ruas olhando para tudo e para todos. Final apoteótico, eu sei... Cresci vendo novela. 

Amanhã vou caminhar pela cidade e procurar tirar mais uma foto de algum filme que me marcou. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Quase cinco anos em Nova York

A ideia era falar de sexualidade, das agruras da vida LGBTQ, mas sexualidade é só uma parte de mim, mais uma entre tantas. Morar em Nova York é outra, ser brasileiro é mais uma e por aí vai....

Pois, a partir, de hoje, repenso os rumos desse blog mais uma vez e decido que vou simplesmente escrever, ou tentar... 

Bem, depois de mais um tempão longe, resolvi escrever de novo e agora sobre a minha relação de amor e ódio com os turistas brasileiros em Nova York. Espero que gostem (ou odeiem).



João pagando de turista I

Depois de quase cinco anos em Nova York, posso dizer que já vi muita gente passando pela cidade, seja de férias, seja fazendo curso, seja se escondendo..... e eu fui ficando por aqui. E fui coletando histórias de gente que passou por aqui. Muita coisa boa de lembrar, mas muita coisa que dá uma vontade de rasgar o RG.

Nova York – e os Estados Unidos de uma maneira geral – causa uma certa fascinação entre os brasileiros. Não é de se espantar, por muitos anos este país tem sido o modelo econômico e social para muita gente no Brasil. Viver o sonho americano através dos filmes e dos seriados de televisão acabou se tornando, até uma certa medida, o próprio sonho brasileiro. E muitos vêm para cá com esperança de reproduzir aquela pequena cena de seriado ou aquele pequeno memento de um filme quase inesquecível.

Acho que tudo bem... não sei.... morar aqui me deixou meio cínico e cético, como disse um amigo meu, os Estados Unidos me transformaram em um comunista. Nem tanto, mas há momentos em que conviver com brasileiros por aqui dá vontade de fugir para uma ilha e esconder minha nacionalidade.

Eu não sei escrever muito bem, não sei escrever blog, não sei escrever “posts” bem sacados no facebook, por isso resolvi preparar este pequeno texto para dividir algumas angústias que passei por aqui. Pensei em uma lista porque me parece que está no moda no mundo virtual. As pessoas leem mais facilmente, se reconhecem, dão risada e passam adiante, mas não sei fazer listas. Pois então: Por mais simples ou blasé que seja este texto, posso garantir que tudo que está relatado aqui é a mais pura realidade, como no show de Truman, ou melhor, como tudo que se passa neste país que serve de modelo agridoce para nossa abastada sociedade brasileira.

Pois, este texto nasce de uma frustração, ou várias frustrações que surgem enquanto convivemos com compatriotas em terras ianques. Modelos de comportamento que se não são comuns, marcam, pelo menos, uma certa tendência entre nós atualmente.

A sensação que tenho é que brasileiros, mais do que americanos ou outras nacionalidades que tenho convivido por aqui querem fazer o máximo possível, da maneira mais rápida possível.  Seja essa maneira eficiente ou não. Isso não é importante para nós, mas que seja feito, ou melhor, que aconteça, ou como se dizia naquela novela “cada mergulho um flash”.

E de onde vem tanta angústia então...

Certa vez, fui ver com alguns amigos uma montagem do Tennessee Williams, “Cat on a Hot Tin Roof” com a Scarlet Johanssen, que atraiu muita gente ao teatro pelo nome dela. Fui com conhecidos de uma amiga que estavam de férias por aqui. No final do primeiro ato, eles nos disseram “Bem, já vimos, agora nós vamos para a balada”... Eu queria argumentar, pois teríamos ainda mais dois atos. Mas eu sabia o que aquilo tudo significava. Estavam ali só para dizer no Brasil que viram a Scarlet ao vivo no palco. Saíram e foram para a balada.
João mostrando as situações
que passa pela cidade

Queria achar que fosse algo deles, dois atores (sim, eram atores) aspirantes à celebridades passando por Nova York para dizer que estiveram por aqui. Mas na verdade, situações parecidas aconteceram outras vezes.

Meses depois, eu levei um grupo de amigos de um amigo para o MET, o maior museu da cidade. Eles tinham passado uma semana em Nova York e não tinham ido a nenhum museu! Pois, na porta do museu, fizeram o “check-in” no facebook e saíram. “Já viemos, não?”. A sensação de que haviam feito um favor para mim ficou ali, pairando no ar...

Entre todos esses, eu respeito aqueles que me disseram sem vergonha nenhuma que não estavam aqui para ver museu mas para andar pela cidade e fazer compras.

Outra característica nossa é o silêncio quando vemos compatriotas. Diferentemente dos italianos, espanhóis, russos... que quando se encontram, conversam ou trocam ideias, os brasileiros ao perceberem que há outros brasileiros se aproximando, se silenciam até que o outro grupo saia de perto. Talvez seja a nossa vergonha de talvez encontrarmos alguém como a gente mesmo: alguém cheio de sacola, que fale alto e que não queira conhecer a cidade, só fazer compras.

Eu, mais de uma vez, ao perceber que estavam perdidos, ofereci ajuda e mais de uma vez, eles negaram, “não precisamos”... E eu pensava em responder – bem americanizado, com aquele tom de seriado de televisão – “ vocês sabem que eu falo português e que ouvi a conversa e vi que vocês estavam perdidos...”, mas ultimamente ignoro. De raiva no começo, dei informação errada e mandei o casal feliz para as últimas paradas do Queens, quem sabe não aprenderam que aqui não é tão perfeito como nos filmes que Hollywood vende.

Brasileiros são reconhecidos facilmente, por mais que a gente não queira ser reconhecido de jeito nenhum. É fácil. Óculos de sol gigante nas mulheres, cabelo com chapinha e um tipo de luzes que só se faz no Brasil, uma cor meio amarelada que não se vê por aqui. O homem: camiseta justa de marca que são feitas para jovens magros, calça de marca, tênis extravagante de marca... Basicamente os dois se parecem como que se um shopping brega tivesse vomitado neles. Pois então, nós somos facilmente reconhecidos. E depois de cinco anos aqui, vejo de longe.

João pagando de turista II (fingindo que
nem viu a foto)
Tem ainda uma característica que, confesso, compartilhei por muito tempo. Brasileiro disfarça admiração, choque, estupefamento e aquela sensação de boca aberta. Eu me lembro quando um amigo espanhol me pediu que nós nunca perdêssemos a sensação de maravilhamento sempre que víssemos o Empire State Building (a universidade que me ofereceu bolsa é em frente). Até então, sempre que saia do metrô eu baixava a cabeça para não ter que admirar o edifício e fingir ser local como bom brasileiro que sou. Mas depois daquele dia, sempre que passo por lá, olho para cima e me lembro do meu amigo e de como aquilo ainda me deixa maravilhado. É um edifício de quase cem anos, de quase cem andares.... Mas de maneira geral, brasileiro faz uma cara blasé quando passa por aqui, como se nada fosse suficientemente maravilhoso (só o Cristo ou as Cataratas – mas também só quando não estamos no Brasil). Olhamos as flores caindo no parque e não falamos nada. Hoje eu penso, “fenômenos da natureza que não acontecem no Brasil!”.

Mas apesar dessa falsa falta de paixão, nós adoramos tirar foto, postar, digitar, tudo instantaneamente. Todos (ou quase todos para evitar generalizações... sim, cinco anos aqui nos deixam mais politicamente corretos) querem, antes de mais nada, comprar um smartphone, uma câmera e eletrônicos para registrar toda a viagem. E assim, saem pelos parques e lojas postando tudo.

A intermediação tecnológica está se transformando em algo insuportável. Não se pode mais sentar em um restaurante sem que os primeiros dez ou quinze minutos sejam com todos nos seus celulares. Eu tenho sofrido – juntamente com muitos amigos daqui – do efeito oposto: quanto mais usam, menos quero usar.

Outra vez, com um grupo de conhecidos, uma amiga que também mora aqui se levantou da mesa e tirou todos os celulares das mãos de todo mundo. “Pronto, agora podemos conversar, não?”. Situação genialmente constrangedora. Saibam que nós que moramos aqui deixamos de fazer alguma coisa para acompanhar vocês em algum lugar que nós não iríamos se não fosse por vocês. Sentar-se em uma mesa e ficar postando e comentando no “face” como vocês dizem por aí, é, no mínimo, de uma falta de respeito tamanha. Guarde o seu celular por alguns minutos e aproveite a noite.

Em outra oportunidade, ofereci a alguns conhecidos para almoçarmos na universidade onde trabalho. Um deles perguntou “mas o que tem lá?”... Responder que é um campus de quase duzentos anos, com prédios históricos, um campus universitário urbano, uma universidade privada em que as pessoas podem andar pelos jardins (deixo a indireta para a USP) não foi suficiente. “É, legal, quem sabe outro dia se a gente tiver tempo depois das compras”.

Brasileiros também tem sempre alguma indicação de algum lugar para comer “ai, tem um restaurante excelente que eu comi uma vez, você precisa ir”. Não, querido, aquilo é só um café/deli que tem igual em cada esquina. Mas vale a experiência que ninguém mais teve e o prazer de poder dizer que já esteve aqui antes. Brasileiros não gostam de ser inexperientes. Por alguma desordem confundimos o que Jobim dizia sobre o Brasil não ser para principiantes...

Uma pena que os “check-in” sem entrar, as sacolas de roupas de marca feitas só para turistas, o excesso de compras desnecessárias, a grosseria com vendedores, a subserviência com a cultura americana, o hábito de exaltar a “América” e destratar o Brasil e outros pequenos costumes ainda são maioria por aqui. Tanto acontece por aqui que fazem de nós, a nossa marca, o nosso jeito.

Somos um fenômeno turístico interessante. Percebam que em todas as lojas daqui há algo em português, mas não há em nenhum museu placas na nossa língua, isso diz muito dos nossos hábitos turísticos.


João tentando tirar aquela foto que poderia ganhar
um prêmio...
Esses anos aqui, me deixam, assim, entre amargo e animado – bittersweet. De vez em quando prazeres espontâneos aparecem. Fico feliz, por exemplo, quando descobrem lugares que não conheço. Uma vez, minha irmã veio para cá e foi a um museu/ biblioteca particular que não tinha ido ainda. Ou quando uma amiga achou uma risoteria que acabou se transformando num dos meus restaurantes favoritos (esse, sim, um restaurante de verdade). Às vezes, brasileiros "me surpreendemos" e isso vale as visitas.

E nem tudo é tragédia cultural, não. Há coisas bonitas também. A melancolia instantânea e a rapidez com que nos apaixonamos por coisas e pessoas faz de nós, assim meio que únicos. Essa vontade de nos despedirmos antes de sairmos de algum lugar, essa rapidez que algo estrangeiro se transforma em nosso (“só a antropofagia nos une”) faz com que aquele suspiro saudoso da janela do aeroporto me faça esquecer de todas as estripulias brasileiras em terras estadunidenses. Sempre que volto e vejo o olhar melancólico daqueles casais que há dois dias eu queria jogar da ponte, me derreto no pesar alegre nosso. Pena que isso fique entre nós, porque ainda não conseguiram traduzir saudade.