sábado, 29 de agosto de 2015

Debates sobre gênero

Perdemos no nível federal, no nível estadual, e no nível municipal (pelo menos em São Paulo). E perdemos por falta de informação, falta de discussão e mais uma vez, pelo excelente trabalho da mídia conservadora e religiosa em distorcer palavras criando logotipos de fácil assimilação que não dizem nada, apenas propagam preconceito. E muitos compram essas ideias.

A principal e mais ridícula que se tem notícia é a tal da ditadura gay... conceito que ninguém consegue definir, mas adora reproduzir. Preconceitos estúpidos como, ‘não tenho nada contra, mas não quero meu filho aprendendo a ser gay’... E a lista adianta.
Ditadura se aproxima de doutrina e se formos falar de doutrina, são as religiões que impõem doutrinas, não? Não há uma ditadura gay, nunca existiu e não há maneira de existir tal coisa. 

A inclusão do debate de gênero nas escolas vai muito além da questão sexual, procuraria mostrar que vivemos em uma sociedade desigual em que mulheres não têm os mesmos privilégios que homens e que tais questões passam por tópicos como raça, classe social e muitos outros. Quando digo que perdemos, todos perdemos. Pequenas e grandes agressões vão além da causa LGBT, interferem na convivência humana. Essa obsessão crescente com a sexualidade (ou melhor, contra a sexualidade) já atingiu níveis de intolerância criminosa. Sexualidade não é sexo! 

Há pessoas que dizem que não é preciso discutir "essas coisas"... Sim, é preciso! Precisamos entender quem e como somos e que há possibilidade de reverter pontos de desigualdade. A escola é parte da sociedade, e como membro ativo da nossa coletividade reflete tais práticas. Desde o menino que não quer jogar futebol até a menina que é excelente em matemática. Vejam que não estou falando de questões de orientação sexual, simplesmente em questões de práticas sociais que ainda hoje sofremos pressão.

Mais exemplos: o menino precisa ser agressivo, precisa se defender. A menina precisa falar baixo, não pode correr. Parece manual dos anos 50, mais ainda se reflete nas escolas. E isso interfere na vida adulta. A Carta Capital publicou um bom texto discorre sobre como a ciência tem mostrado tais efeitos na vida adulta, porém apesar de sermos um estado laico, a religião ainda define os parâmetros escolares. A sala de aula, a escola e a sociedade precisam ser espaços que garantam a igualdade de gênero para todos. 

O debate sobre questões de gênero vai além da questão LGBT. Tal discussão é fundamental para todos. Ainda vivemos em uma sociedade extremamente machista. Desde cedo meninos precisam provar que são homens e meninas precisam entender que são e serão “apenas” mulheres.

Tal debate na escola procuraria diminuir a opressão, mostrar que a igualdade de gênero traz avanços a qualquer sociedade nos mais diversos quesitos. Faz com que entendamos a importância do respeito ao ser humano na sua mais importante habilidade: a vontade de ser alguém.


A escola que se cala, e um país que também se cala frente a essas discussões assume a culpa da grande evasão escolar que temos hoje em dia e também por manter a desigualdade social em níveis alarmantes.  Por exemplo, uma sociedade em que a mulher ainda ganha menos e que acesso à saúde é precário para citar apenas dois exemplos.


Parece que estou batendo na mesma tecla. E sim, estou. Se o governo segue cedendo aos políticos com agendas religiosas em um estado laico, é preciso vozes e mais vozes que garantam tais discussões. Eu fui silenciado durante muitos anos na escola. Fui xingado porque não jogava futebol, convivi com muitos amigos heterossexuais que também não jogavam futebol e também eram xingados. Como eu disse, não é sobre orientação sexual, é sobre respeito ao ser humano. 

Se não há discussão oficial, que haja paralela. Que mais e mais professores, alunos, pais e cidadãos procurem saber sobre o assunto sem se limitarem a palavras-chaves reducionistas. A maneira mais simples de se respeitar, é entender e para entender algo é preciso aprender - na escola e fora dela. 



P.S:

Foto do site da Folha: Cotidiano, 25/08/2015
Enquanto acompanhava pelos jornais a votação em São Paulo uma das cenas mais marcantes foi a de uma freira rezando pedindo a exclusão do 'gênero'. Uma mulher, freira, religiosa rezando pela sua própria discriminação, não como freira, mas como mulher. 







quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Brasileiros em Nova York

Outro dia me disseram que passaporte brasileiro valia muito dinheiro no mercado negro. A razão que me deram foi o fato de o brasileiro não ter um tipo físico muito aparente ou específico. Vamos de oriental, branco, negro (apesar da gente querer insistir que a Gisele Bundchen é o nosso padrão...)

Verdade.

Mentira... Há algo de brasileiro na gente que nos molda. Há um jeito, um olhar, uma cara. E nesses últimos anos nos Estados Unidos, eu adquiri um super-poder de super-herói americano. Adquiri uma visão além-do-alcance para brasileiros em Nova York. Visão essa que foi se aprimorando com o tempo, pois agora detecto os que moram aqui e os que estão visitando. Nunca falha, ou pelo menos, ainda não falhou. Vejo de longe e recebo suas energias orgônicas e acerto. Hoje de manhã, eu detectei vários.

Brasileiros têm várias características comuns. Apesar da "diversidade" que os ladrões de passaporte gostam de ressaltar, nós temos uma cara, ou melhor, um jeito. As mulheres têm um cabelo muito parecido (acho que já falei disso aqui) e é verdade, há um corte típico que mesmo diferente, é parecido. E os homens têm uma carinha semelhante. A maneira de segurar o iphone, a maneira de tirar foto. Acho que é o olhar, com a linguagem corporal. Fora de casa, fica mais fácil observar, como em um apocalipse zumbi, com o tempo você passa a diferenciar de longe o que é zumbi e o que é gente.

Mas há uma característica muito comum no exterior entre nós: A mania de que querer ser local. Brasileiro não pede informação, não anda com mapa na mão – algo que quase todos os turistas fazem em Nova York. Brasileiro procura endereço discretamente. Não pergunta. 

E outra coisa mais forte ainda que nos marca: Brasileiro fala baixo, diferentemente dos italianos, franceses e dos espanhóis. Fora do Brasil, brasileiro fala baixo, morre de vergonha que percebam que eles não são locais ou que não falam a língua local. Fora do Brasil, falamos baixo, que fique claro... Há uma vergonha de falar português. 

E a coisa mais engraçada que já vi muitas vezes e presenciei. Brasileiros quando veem outros grupos de brasileiros se silenciam. Param de falar. Não querem ser reconhecidos. Faça o teste, entre em uma loja de descontos, tipo Century 21, e ande pelos corredores falando português. Ao nos encontrarmos, paramos de falar, olhamos com vergonha, com um sorriso de vontade de se conhecer, mas ficamos tímidos. No fundo, somos tímidos. 

Sempre que saia com a Fran, minha companheira de caminhadas, compras e tudo o mais na cidade, não havia uma vez que não percebíamos o silêncio-reconhecedor dos brasileiros em Nova York.

O fato mais interessante é que em Nova York ninguém fala inglês. No metrô, na rua... não houve até hoje, e pode acreditar, um dia em que saí de casa e no meu caminho até o metrô não ouvi alguém falando uma língua diferente do inglês. Todos falam alguma outra língua. Além do espanhol, há o francês, árabe, hindi, sérvio, russo, criolo francês... menos o português. Português não se fala nas ruas de Nova York, se sussurra. A nossa língua é pouco ouvida, há que se ter audição além-do-alcance. Eu não tenho, mas tenho a minha super-visão. E mesmo em silêncio eu detecto esse grupo.

Quantas vezes eu não vi uma família e me ofereci para tirar foto e eles se envergonharam... "Ah, nossa... não precisa, não". Fora do Brasil que a gente se vira mesmo. Enquanto em casa, a gente gosta dos serviços prestados por terceiros, fora do Brasil, a gente se vira, até para tirar foto. 

No começo, eu procurava ajudar, agora, ignoro, observo e os deixo perdidos. Bem, já dei informação errada, sim. Porque não suporto menininha com cara de cocô com o namorado com cara de quem come cocô fingindo que não precisa de ajuda. E assumo, já mandei gente pro lado oposto só de birra....

Esses dias que ainda estou de férias tenho exercido minha visão brasileira além-do-alcance. Estamos em todos os lugares, mas em silêncio. Hoje eu peguei meu celular e fingi falar com em português. Passei por dois casais e ao chegar perto, eles ouviram minha voz e pararam de falar. 

Por que fazemos isso?????? 

Não sei. Só sei que gosto de caçar brasileiros pelas ruas da cidade. Cuidado que um dia eu te acho! 


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

As fotos que escondem o armário

Uma das grandes verdades sobre o armário que fingimos não perceber é que na maioria dos casos - na grande maioria dos casos - as pessoas sabem sobre a nossa orientação sexual. Simplesmente não comentam porque elas acham que somos nós que temos problemas com a nossa sexualidade. E infelizmente, elas estão certas.

Amigos heterossexuais, pensem em todos os amigos gays e lésbicas que vocês têm e que vivem no armário. Vocês sabem, não? Não falam nada, não? Por quê?

Nós vivemos nessa mentira porque nos conforta e porque no fundo queremos até passar por heterossexuais (vou falar sobre isso também um desses dias).

Essa semana eu postei sobre a "união das escovas de dentes" minha e do meu namorado, agora 'partner'! E me lembrei de alguns amigos em São Paulo que insistem em se esconder por detrás das suas agonias. Eu conheço muita gente que transformou a vida online em segmento da vida real. Faz check-in, posta foto, comenta, faz tudo... mas se mantém em silêncio sobre a vida afetiva (veja: vida afetiva, não sexual). Um conhecido em São Paulo me disse, "mas isso é minha vida pessoal".

Pois ainda caímos na mesma desculpa entre vida pessoal e vida pública. Vida pessoal no instagram, no twitter, no facebook, em todos os sites de social media? Um outro conhecido viaja o mundo com seu namorado, os dois postam fotos das viagens, mas nunca juntos. É como se viajassem constantemente sozinhos. Só quem vê as fotos sabe que há um outro alguém por detrás daquelas câmeras (sorry, iphones, gente fina tira foto de iphone, não pela câmera).
Isso me parece uma agressão. Uma pessoa que tem tanto prazer em postar tudo, com certeza, sofre por não postar sobre o seu relacionamento....

Essa desculpa de vida privada não cola mais hoje em dia. Se uma pessoa posta cada check-in que faz, é preciso refletir sobre os limites do medo, e de como essa pessoa ainda está no armário. Eu tenho brigado muito sobre esses medos.

Não posso ter medo ou vergonha de dizer que estou morando afetivamente com um outro indivíduo. Essa parte da minha vida é tão importante quanto as fotos dos casamentos de todos os meus amigos e familiares. Pessoalmente, não pretendo me casar, mas quero que as pessoas saibam que tenho alguém. Não quero situações constrangedoras em que todos sabem, mas ninguém fala. O elefante cor-de-rosa desaparece e passamos a mostrar às pessoas que afetividade não tem gênero, idade, sexo, identidade ou orientação.

Eu sempre pergunto para esses amigos que se escondem. Se você estivesse casado com uma mulher (ou homem para as lésbicas) você postaria fotos? A resposta: Silêncio....
A verdade é que vida pessoal vale para todos. Há heterossexuais que não postam nada, há LGBTs que não postam nada e gente que divide muito. Minha pergunta é simples, se você é desses que divide tudo porque não fala do seu relacionamento? Eu te digo: armário!

Falar sobre isso é o que me faz político. Insistir que ser feliz é ser simples, é não ter medo. Talvez tenha gente que ache que eu exagere, não sei. Eu me acho discreto no quesito vida online, mas saber que as pessoas sabem que minha vida afetiva é plena e feliz é importante para mim. Saber que LGBTs vivem de maneira tão diversa como os heterossexuais é parte da nossa busca política. Tem gente que casa, gente que vive junto, gente que tem amante, gente que não transa, gente que casa e não transa, gente que só transa e nunca casou.... e isso vale para tod@s sem distinção de identidade ou orientação sexual.

Como dizia um amigo, eu sou um monogâmico feliz, por que esconder?

Vamos pensar sobre isso, gente.... O que nos impede de postar fotos ao lado do namorad@?
















quinta-feira, 30 de julho de 2015

Efeminofobia

De que te serve ser um menino se vais crescer e tornar-te um homem? 
Gertrude Stein


Os dois últimos meses foram bem intensos e cheios de novidades. Entre elas, eu tive a chance de participar do Chá dos 5 (a página oficial no facebook deles aqui). Eu venho acompanhando os vídeos deles há uns meses e fiquei super feliz de poder falar das minhas inquietações com o Marcell, Rafael, Renato e Thiago.

Durante o programa, falamos de várias coisas como a importância de se discutir identidade e orientação sexuais na escola; sobre a não menos importante ideia de que os professores precisam saber sobre o assunto, e entre outros tantos assuntos, mencionei a ideia de efeminofobia.

O termo tem aparecido bastante em artigos acadêmicos em inglês (effeminophobia) discutindo a ideia de que temos um pavor em relação aos rapazes efeminados. Entre tantos textos há dois que são particularmente importantes por irem além do academicismo e tratarem de tais temas de maneira tão 'delicada'. O primeiro é do Giancarlo Cornejo e se chama "La guerra declarada contra el niño afeminado: Una autoetnografia queer". E o outro é de Eve Segdwick e se chama "How to bring your kids up gay". A tradução literal do termo indica fobia a efeminados e procura mostrar esse horror que se sente em relação à efeminação.

Tal 'pavor' existe mesmo dentro da própria comunidade LGBT. Afinal, quantas vezes não ouvimos coisas do tipo "ser gay, tudo bem, mas não precisa desmunhecar, né?", "não gosto de veado, gosto de homem de verdade", "ele é tão bonitinho, pena que é feminino" e a lista vai, poderíamos seguir com tal discussão por muito tempo e muitos de nós temos exemplos semelhantes. Sem contar na quantidade de gays que não conseguem se olhar no espelho e perceber a própria feminilidade (seja lá o que for essa tal marca feminina ou masculina...).

Eu me lembro quando um conhecido em São Paulo me disse que preferia não sentar na mesa de um 'certo' grupo de pessoas porque eram muito bichas.... Eu perguntei se ele já tinha se questionado quantas vezes alguém não teria falado a mesma coisa dele, só que pelas costas como ele estava fazendo naquele momento. Antes de sair do bar, ele me disse, vai lá você se contaminar com essa gente'. Sim, contaminar.... Efeminação é, além de tudo, contagiosa.

Ainda no campo da memória, para mim, como professor, o exemplo mais marcante foi quando ouvi da coordenadora de uma escola onde eu trabalhava que ela gostava muito do Prof. X, mas achava que ele era feminino demais para dar aula para crianças ou para os mais velhos do ensino médio. Na época, como em muitas outras vezes, me silenciei. Não tive coragem de reagir a tamanho preconceito.

Preconceito? Sim, preconceito. Muitas pessoas, LGBT inclusive, ainda insistem numa tal ideia de masculinidade para homens ou feminilidade para as mulheres. Insistem que o problema não é ser gay, mas ser muito espalhafatoso ou outros eufemismos que usamos para mascarar o nosso preconceito. Pois eu pergunto, qual é o problema em ser efeminado? Qual o problema em ser 'mulherzinha'?

A(s) resposta(s) para tais questionamentos nos obrigam a voltar a pensar na mulher e de que como a ideia de feminilidade é vista como algo menor, algo sem valor. Tal preconceito esbarra numa ideia pré-concebida do que seja ser mulher, ou feminino/a. Feminismo, alguém?

É fundamental que a gente comece a perceber nossos próprios preconceitos e tentar entender porque o feminino nos incomoda tanto. E há tanto tempo. É preciso perder a vergonha que se sente ao andar ao lado de um rapaz feminino e tentar entender porque isso nos incomoda. Será mesmo que com andamos nos define?

A efeminofobia é um problema sério, um preconceito gravíssimo que gera situações opressivas a crianças que, muitas vezes, ainda nem estão questionando a suas sexualidades. Gera opressão a adolescentes que se sentem isolados em seu espaço escolar (o local onde normalmente passam a maior parte de sua adolescência). Oprime a adultos em seus ambientes de trabalho,e em suas vidas de maneira geral. A efeminofobia não é só em relação aos rapazes efeminados. Esse pavor/ medo é em relação aos nossos próprios desejos. E, por isso, é fundamental que encontremos maneiras de entender nossos preconceitos e tentar mudar a forma como lidamos com todos aqueles que não respondem à ansiedade social de ser homem, ou de ser mulher. Afinal, quem é que responde de maneira tão 'correta' a tal modelo?

Vamos voltar um pouco no tempo e terminar dançando a nossa feminilidade/ masculinidade e tentar vencer nossos próprios preconceitos?








segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Entre palavras


Eu sou um homem de palavra, desculpe, sou uma pessoa de palavras, das palavras. E estou preso entre gêneros que me secam, me desatinam e me traçam caminhos.

Sou uma pessoa de palavras que foge dos rotas letradas e segue por paralelas acadêmicas. Sou uma pessoa que usa as palavras em espaço escolar, que encanta de maneira presencial sonhando em ser página de livro. Pessoa que sonha em ser citação, em ser palavra na boca dos outros, em ser ideia alheia.

Fui seguindo a rota da palavra. Humanas, Letras, Educação, Literatura. Colegial, Faculdade, Metrado e Doutorado. Secretamente escrevi vários livros de poesia. O primeiro aos vinte anos, nunca ninguém leu. Os jurados do Nascente/ USP quase leram, mas desisti na última hora. Todos os meus livros escondidos foram fruto do amor, do desamor ou da vontade de ser amor. Livros segredos.

Segui a trilha acadêmica, escolhi falar no gênero menos amoroso de todos, e fui colocando pitadas de desejo nas notas de rodapé, nos exercícios de língua, nos trabalhos em diversas línguas. E fui mantendo meu segredo poético em mim. Aos poucos fui saindo do armário. Para mim, foi mais fácil sair do armário como pessoa gay que como pessoa poeta. Pois o poeta tem outro nome. Grito com orgulho, “sou gay”, mas me silencio de vergonha “sou poeta”. Tenho confiança no meu ser gay, mas desatino nesse ser poeta. Porque ser poeta é como título de nobreza, ninguém se auto-intitula, é posto recebido. Poeta é como travesti, nenhuma se autonomeia, é batizada. Pois, eu não posso ser poeta...

Por isso, escrevo dissertação de mestrado, trabalho acadêmico, artigo, apresentação em conferência, mas não falo de poesia, falo de escrever, falo de ler, falo da vontade de escrever, mas não falo da minha vontade de escrever. Se defendo a ficção, é porque secretamente defendo a minha vontade de ficção. E sigo em silêncio.

Silêncio sufoca e chega aquele momento que parece que vamos explodir. Eu estou preso nas minhas próprias palavras. Deixei meus parágrafos acadêmicos me prenderem entre páginas e capítulos de algo que me dói seguir fazendo. Mas se dor é propulsão, haverá uma hora que isso acabará.

Meu engano foi achar que podia enganar a mim mesmo. Não me casei com uma mulher, não a maltratei, mas me casei com a academia e deixei que ela achasse que eu fosse uma pessoa de palavra científica. Ela me aceitou desse jeito ajambrado que escreve em inglês pensando em português com desafinos de espanhol. Essa academia, quando estamos entre nós dois, me aceita do jeito que sou. Mas quando partimos para orgias intelectuais parece que me transformo naquele tímido que só observa com medo ou no doido que se atira em todo mundo sem pensar muito.

Mas eu penso, é o que faço mais, pensar. Me cai o cabelo, me cai a barba, me salta na pele essa mania de pensar. E eu insisto no acadêmico porque, às vezes, eu acho que tenho algo para falar, quando, na verdade, eu queria cantar. Mas o destino é sábio, não me deixou cantar, porque eu preciso escrever.

Então eu escrevo. Escrevo porque eu acho que devemos escrever senão estamos perdidos. E quando não escrevo, secretamente danço. Porque todo poeta deveria ser bailarino. E todo acadêmico deveria ser bailarino. E todas as pessoas deveriam ser bailarinas.

A academia me quer tese. Eu quero palavra. Haverá um dia em que isso termine. Só existe matéria quando o desejo se converte em vontade e daí se transforma em palavra. Talvez eu precise deixar de dançar para que a academia surja.

Hoje o poeta quase saiu totalmente do armário. Volta mais um pouco, vou deixar uma porta aberta para que vocês vejam que ele ainda é, mas precisa estar lá mais um pouco.


Ainda que a vontade de dançar seja infinitamente maior, é preciso formalizar as palavras. Devorar a academia antes que este gênero tão específico, tão definido – tese – devore esse poeta tão escondido.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Pensando em órgãos excretores



Há um lado radical meu que sente uma certa angústia (ou raiva mesmo) quando ouço de conhecidos que vivem abertamente no armário lacrado que se sentem desrespeitados com comentários como o de Fidélix. Como sentir-se desrespeitado se a princípio ninguém sabe dessa sua parte (ou pequena parte, como dizem alguns)? Deve ser angustiante sentir-se desrespeitado e não poder dizer o por quê. Eu me sinto desrespeitado, não porque ele disse besteiras, mas porque ele disse absurdos que afetam, não só a mim, mas a todas pessoas que me conhecem e me respeitam também. O constrangedor silêncio de todos os candidatos e de muita gente sobre o assunto nos faz menos importantes, menos relevantes e menos cidadãos. Se vamos falar de identidades, é preciso FALAR sobre o assunto e não silenciar-nos enquanto um grita impropérios. 

E eu fico ansioso porque me parece que temos que responder a tudo que nos acontece em 140 caracteres, e com frases de efeito. E eu me silencio porque acho que ninguém vai ler, ouvir ou se importar ou quando eu finalmente tenho uma resposta, o assunto já passou! Não consigo ser tão breve, não acho possível e tenho medo da brevidade das discussões hoje em dia. Reflexão não pode ser limitada, deve ser articulada dentro do espaço e tempo que são necessários para as nossas meditações.

E fico mais ansioso porque é difícil responder a um indivíduo que associa sexo anal à homossexualidade (nem vou comentar a relação com pedofilia porque não quero ter que justificar tal vergonhoso absurdo verbalizado pelo candidato). A minha ansiedade vem do fato que para responder a tal comentário é preciso falar de pênis, vagina, ânus e aí, todo mundo arrepia a nuca... Precisamos falar de sexo, precisamos falar das nossas partes... Então é melhor nem falar nada.

Pois se tal candidato faz tais associações é preciso perguntar: Não são todos órgãos excretores de alguma maneira? Urina, fezes... não está tudo conectado de maneira anatomicamente superficial? E também temos que falar de sexo anal. Pois afinal, heterossexuais não fazem sexo anal? Ou então, todo gay faz sexo anal? Sexo anal é exclusivo para homens? Como podemos deixar um homem simplificar tanto a experiência sexual humana... em nome de quem? Do quê?

Comentários como o de Levy Fidelix são perigosos em vários sentidos. Eles associam práticas sexuais a identidades gerando ansiedade e repressão em muita gente. Nos silenciam porque nos dá medo de falar de identidades sexuais quando a única coisa que identifica um indivíduo é sua prática sexual.

Ser homossexual, gay, lésbica, bicha, bissexual, sapatão, heterossexual, travesti, transexual, transgênero não é associar-se a uma prática sexual, é associar-se a uma determinada afetividade, que pode ou não incluir atividades sexuais. Se precisamos falar de identidade sexual ou de gênero é preciso falar de muitas outras coisas que vão além do ato sexual. É o modo de falar, de vestir, onde morar, com quem se relacionar... é inserção em várias culturas que são tão diversas quanto as nossas práticas sexuais.

As frases de Fidelix incitam ao ódio, ao separatismo e à incompreensão. Não nos ajudam em nada como sociedade igualitária ou uma sociedade que busca igualdade entre os seus cidadãos. Tais comentários devem ser sempre questionados, deve haver espaço para discussão, para que essa pessoa possa ser silenciada não pela censura, mas pela argumentação. Quanto mais discussão houver, menos espaço para tais absurdos existirão. Lembrem-se que no passado pesquisas associaram tamanho do cérebro à inteligência, justificando quais raças seriam superiores a outras, que pesquisas comprovam que homens podem mais que mulheres (sim, isso ainda existe).... é preciso espaço e tempo para que tais discursos sejam, por fim, silenciados.

Porém, enquanto isso não acontece, a aprovação da lei que criminaliza a homofobia é fundamental para que sejamos, pelo menos, responsáveis pelas coisas que falamos ou fazemos.




P.S. Como eu disse no texto, eu preciso de tempo para pensar e refletir. Este texto veio do calor da hora, me ajudem a corrigir, melhorar e pensar mais sobre o assunto.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Esse mundo.....


Acho estranho falar de gente famosa usando só o primeiro nome como se fosse íntimo, acho mais estranho ainda chamar alguém de amigo quando você só viu a pessoa uma vez ou pior, nos dias de hoje, quando você nunca viu.

Acho brega dizer que adora o Caê, o Gil, a Gal, para mim eles são o Caetano Veloso, o Gilberto Gil e a Gal Costa, nunca os vi, e não sei se eles me dariam permissão para chamar pelos apelidos.

Eu me lembro de um dia que estava num restaurante e um amigo disse, “olha, o gianni está aqui”, eu entendi Jean e perguntei quem era, meu amigo, bravo, muito bravo me chamou de arrogante e disse que eu era um besta que adorava novela e fingia que não sabia quem era o Reinaldo. “Que Reinaldo?” Meu amigo nunca entendeu que não é arrogância, é vergonha mesmo. Para mim, aquela pessoa é o Reinaldo Giannechini, ator de novelas (que, sim, adoro assistir). Ele no restaurante é um pessoa que eu não conheço.

Eu também não sei se famosos são vaidosos ou não, portanto não me dirijo a eles como se fossem íntimos dizendo que adoro o trabalho deles. Não sei quem são. Eu conheço a obra. Há uns que gostam de serem reconhecidos, mas com o risco de  passar vergonha prefiro manter-me na minha arrogância usual. Sei lá... a gente mede os outros pelo nosso metro, não? Eu detesto intimidade com gente que não conheço, me arrepia o cabelo quem me chama de “Ju” sem me conhecer direito, pois então parto do princípio que pessoas conhecidas não querem falar com estranhos no meio da rua, não?

Também, sempre acho ridículo essas pessoas que choram, que gritam, que saem correndo, que fazem de tudo por gente que não conhecem. Eu choro com livro, filme, com obra, mas nunca com o artista. Acho meio problemático, na verdade. Mas aí, tem aqueles momentos que a gente tem que fingir que não chora....

Hoje morreu a Vange Leonel. Na minha adolescência cool eu adorava suas músicas, e adorava citar “Esse mundo” como uma música super gay. Li seus livros, e acompanhei a sua coluna na folha. E resolvi citá-la na minha tese ao falar de literatura lésbica (perdoem a simplificação, não é hora de teoria, é hora de choro disfarçado). Fiquei meio triste porque é uma pessoa que admirava muito. Quer dizer, uma artista, porque como pessoa não sei quase nada dela. Não é minha amiga, não é a Van... é a Vange Leonel.

E, no meio desses pensamentos, eu tive que voltar para a tese e mudar os verbos “She is...” para “she was...”, e dá aquele aperto na garganta.... mas tão cedo. A gente só chora quando a Globo coloca música triste, quando faz reencontro, mas assim do nada, de gente que não conhecemos, me parece estranho. É pela obra, talvez....

Essa é a coisa de tese que lida com gente viva, de repente, no meio da tese, antes da defesa, ela morre. Nem deu tempo de mandar para ela o trabalho pronto e dizer para ela, “Olha, Vange Leonel, você virou citação! Não é o máximo? Sei lá, eu acho o máximo, sonho de todo intelectual é virar citação!” Fica para próxima.

Eu não me arrependo de nunca ter falado com ela, de não ter foto para postar, dizendo, “saudades, grande”, “perdemos uma grande...”, ou algo assim. Essas manifestações públicas eu acho brega... o meu texto, não....

Ela ainda é Vange Leonel, eu não adorava a Vange, eu respeitava a Vange Leonel que morreu rápido demais para deixar uma obra mais consistente, maior, para termos mais coisas para ler.

O trem partiu, Vange Leonel. Boa viagem! Eu, desse lado do trem, vou tentar continuar brigando um pouco pelos nossos direitos e pode deixar que será em plena luz do dia!